Estudo aponta para possíveis diferenças de gênero nos efeitos da microdosagem de LSD
Uma nova pesquisa sugere que a microdosagem de LSD, substância psicodélica, pode ter um impacto cognitivo diferente entre homens e mulheres. Um estudo apresentado no congresso anual do Colégio Europeu de Neuropsicologia (ECNP) em Munique, pela psicofarmacologista Iva Totomanova, da Universidade de Maastricht, indicou que mulheres podem experimentar benefícios cognitivos mais pronunciados do que homens ao ingerirem doses não psicodélicas de LSD. Os achados, que geraram atenção na revista Nature, foram baseados em testes com 48 voluntários, metade de cada sexo, que receberam 15 microgramas de LSD ou placebo.
Os resultados preliminares mostraram que, em dois testes cognitivos específicos, as mulheres mantiveram a atenção por períodos mais longos e reagiram mais rapidamente a estímulos em comparação com os homens. Essa descoberta adiciona uma camada de complexidade ao debate sobre a eficácia da microdosagem, que ainda é um campo de estudo controverso, e levanta questões sobre a influência das flutuações hormonais femininas nos efeitos de substâncias que alteram a consciência.
As informações foram reunidas a partir de notícias divulgadas pela Nature e pelo boletim The Microdose, da Universidade da Califórnia em Berkeley.
Cautela e a importância de considerar o gênero em pesquisas psicodélicas
Especialistas ressaltam a necessidade de interpretar os resultados com cautela, dada a natureza preliminar e o pequeno tamanho da amostra do estudo. Dimitri Daldegan Bueno, psicólogo brasileiro que pesquisa microdoses na Universidade de Auckland, comentou que, apesar da modesta melhora observada no tempo de reação em mulheres, trata-se de um estudo inicial. Ele também destacou que a pesquisa contradiz estudos anteriores de maior porte que não identificaram melhoras cognitivas em homens. O aspecto mais significativo, segundo Bueno, é a indicação de que podem existir diferenças de gênero nos efeitos da microdosagem, um ponto crucial considerando a histórica sub-representação de mulheres em pesquisas científicas.
Isabel Wiessner, pesquisadora do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN), reforçou a importância e pertinência dessa linha de investigação. Ela enfatizou que o conhecimento sobre a influência do sexo nos efeitos psicodélicos ainda é escasso. Wiessner sugeriu que estudos em psicofarmacologia deveriam incluir uma proporção significativamente maior de mulheres, pois as quatro fases do ciclo menstrual feminino, associadas a diferentes perfis hormonais, podem modular de forma distinta as experiências psicodélicas e a eficácia terapêutica de substâncias como o LSD, psilocibina e DMT.
Hormônios femininos e a resposta a psicodélicos
A pesquisa em Maastricht, onde Totomanova atua, tem se aprofundado na farmacocinética e farmacodinâmica de psicodélicos no corpo feminino, considerando os diversos estados hormonais e fases da vida. Um artigo de revisão publicado em agosto no periódico Molecular Psychiatry por pesquisadoras da universidade abordou justamente essas interconexões. O estudo explorou como hormônios como o estrogênio e a progesterona interagem com o receptor de serotonina 5HT2a, o principal alvo de substâncias psicodélicas. Foi observado que o aumento do estrogênio antes da ovulação pode elevar a densidade desses receptores, potencialmente incrementando a sensibilidade das mulheres a essas substâncias em determinados momentos do ciclo menstrual.
Adicionalmente, a equipe de Maastricht publicou outro artigo em agosto no repositório bioRxiv, que ainda não passou por revisão por pares. Este trabalho também apontou diferenças sexuais nos efeitos de psicodélicos, indicando que mulheres tendem a experimentar
