A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reformulou sua abordagem nas redes sociais após o resultado do primeiro turno, buscando reverter o cenário eleitoral com uma estratégia digital mais agressiva e focada em mobilização via WhatsApp. A mudança de postura, que inclui a produção de vídeos no formato selfie e a articulação de grupos de mensagens, tem gerado preocupação na direita, que via o campo digital como um território consolidado.
A derrota no primeiro turno forçou o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a abandonar o distanciamento das redes sociais. Após um período em que se vangloriou de não usar o mundo digital e alegar não possuir celular, o presidente da República passou a gravar vídeos no formato selfie e a convocar a juventude petista para “virar votos” online. A contratação do deputado federal André Janones (Rede-MG) para coordenar o grupo de WhatsApp “Exército do Lula” sinaliza uma nova prioridade na comunicação da campanha.
Segundo estudo da empresa Datrix, a estratégia petista tem se mostrado mais eficaz na mobilização de militantes através de grupos de mensagens do que com o engajamento de influenciadores de esquerda. Desde 10 de outubro, a campanha de Lula tem atacado pelo flanco do WhatsApp, superando movimentos da direita nos meios digitais. A diretoria executiva da Datrix, João Paulo Castro, destaca a mudança no paradigma da comunicação, com foco na interação e na microinfluência de milhões de pessoas, orquestrando postagens simultâneas sobre os mesmos temas.
Essa estratégia, classificada como “invisível” por ser baseada em grupos fechados e de difícil monitoramento, tem gerado um sinal de alerta na direita. O “Exército do Lula” já alcançou 5 milhões de seguidores, enquanto a “Tropa do Flávio” acumula mais de 2 milhões de usuários no WhatsApp. O senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO) alertou sobre o “terrorismo eleitoral” da esquerda, que estaria conseguindo mobilizar eleitores de uma forma inédita.
Batalha digital chega ao TSE e expõe eficácia do WhatsApp
A disputa digital escalou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o PL alegando distribuição de fake news contra Flávio Bolsonaro no canal “Exército do Lula”. A Corte chegou a suspender o grupo petista, mas a tese de censura obteve maior repercussão (24,7%) do que a acusação de desinformação (9,1%), segundo o estudo da Datrix. A polêmica concentrou 73% das publicações relacionadas à campanha digital no TSE.
Artistas e influenciadores: impacto limitado na mobilização
A entrada de artistas como Anitta e Ludmilla na campanha petista não produziu o efeito esperado. João Paulo Castro aponta que declarações de voto pontuais geram manchetes, mas a mobilização contínua do eleitor exige uma presença mais constante de influenciadores. A campanha de Lula, no entanto, tem visto um aumento no número de seguidores diários em suas redes oficiais, superando Flávio Bolsonaro nesse quesito. A nova estratégia tirou a campanha do “vale da ressaca”, mas o desafio de tirar eleitores da abstenção permanece.
Direita mantém base sólida e engajamento constante
Apesar da movimentação petista, a campanha de Flávio Bolsonaro mantém sua base e o volume de influenciadores intactos, com um trabalho contínuo e perene nas redes sociais. Castro ressalta a resiliência da base bolsonarista e a importância de manter o engajamento, visto que o número de eleitores indecisos no segundo turno é baixo. A estratégia da direita é manter o que já funciona, e a mudança de Lula, segundo a análise, não está prejudicando o outro lado.
Governo Lula e a dificuldade de comunicação digital
A consultora Vanessa Marques aponta que o governo Lula enfrentou dificuldades de comunicação durante seu terceiro mandato, o que impediu que medidas importantes fossem percebidas com eficiência pelo público digital. Desde 2018, a direita domina as plataformas digitais, enquanto Lula privilegiou o estilo tradicional de fazer política. O resultado do primeiro turno obrigou o PT a correr atrás do prejuízo, buscando uma virada que ainda não se concretizou.
Marques defende que a esquerda demorou a entender a necessidade de se adaptar ao público jovem, não bastando apenas voltar às redes. Lula precisa demonstrar vitalidade e chance de virada para reativar a militância. Figuras tradicionais como ele têm mais dificuldade em se adequar ao ambiente digital com naturalidade, o que levou à busca por apoio de novos petistas eleitos, como Ana Elisa, deputada federal mais jovem, que atua como mediadora entre gerações.
A busca pelo quarto mandato coloca Lula em um novo cenário político. Sua adaptação aos novos tempos, embora protelada, é vista como a única opção petista, já que seu capital político ainda impede o surgimento de um sucessor com potencial eleitoral. A campanha digital se tornou o principal palco da disputa, e a capacidade de Lula em se reinventar nesse ambiente definirá seus próximos passos.
