Comportamentos de rigidez, aversão a alimentos e dificuldade de interação social são pontos de convergência entre transtornos alimentares e condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Essa intersecção complexa pode levar ao agravamento dos quadros alimentares, demandando atenção especializada e abordagens terapêuticas multifacetadas.
Estudos clínicos indicam uma incidência significativa de transtornos alimentares em pessoas neurodivergentes. Uma pesquisa de 2020 apontou que entre 20% e 35% das mulheres diagnosticadas com anorexia nervosa apresentam critérios para TEA ou traços autistas acentuados. Essa associação é frequentemente explicada pelas particularidades da expressão do autismo em mulheres, que tendem a mascarar comportamentos e canalizar a necessidade de rotinas para o controle alimentar, calórico e de exercícios, em detrimento de uma busca por autoconhecimento e bem-estar.
Em muitos casos, os próprios sintomas da anorexia podem mascarar o autismo. O isolamento social, por exemplo, pode ser interpretado como constrangimento ou sobrecarga sensorial típica de autistas, e não como uma estratégia para ocultar hábitos alimentares restritivos. Essa confusão diagnóstica pode atrasar o reconhecimento da neurodivergência e a adequação do tratamento.
O Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (TARE), comumente associado ao autismo, difere de outros transtornos alimentares por não ter a autoimagem como principal fator. A restrição alimentar no TARE ocorre devido a aversões sensoriais, como aversão a texturas, cores, temperaturas, cheiros ou sabores específicos dos alimentos. Pessoas com TEA podem ter um paladar extremamente aguçado e uma percepção sensorial intensa, sentindo desconforto com certas consistências ou sabores, o que contribui para a seletividade alimentar.
A complexidade da combinação TDAH e TEA em transtornos alimentares
A coexistência de TDAH e TEA em um mesmo indivíduo adiciona outra camada de complexidade. A rigidez cognitiva característica do autismo pode entrar em conflito com a impulsividade do TDAH, criando um ciclo de alternância entre restrição alimentar e compulsão. Essa dinâmica pode desencadear episódios de bulimia nervosa ou transtorno de compulsão alimentar, além de dificultar o reconhecimento dos sinais de fome e saciedade e a regulação emocional, que frequentemente se manifesta através da comida.
O tratamento de transtornos alimentares em pessoas neurodivergentes exige uma equipe multiprofissional. Psiquiatras, psicólogos e nutricionistas com especialização em transtornos alimentares são essenciais. A supervisora de nutrição Ana Carolina Pereira Costa, do Ambata, destaca a importância de ajudar os pacientes a reconhecerem os sinais corporais de fome e saciedade, a organizarem rotinas alimentares e a desenvolverem mecanismos de regulação emocional que não envolvam a comida. Em alguns casos, pode ser necessário o envolvimento de educadores físicos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.
No caso de pacientes que utilizam medicamentos para TDAH que possam inibir o apetite, é crucial um alinhamento cuidadoso com a equipe médica. O objetivo é encontrar a menor dosagem terapêutica que traga benefícios sem eliminar completamente a sensação de fome, garantindo que o paciente consiga se alimentar adequadamente. A definição de horários para a medicação e outras diretrizes devem ser acordadas em conjunto pela equipe multidisciplinar.
Profissionais e pacientes podem buscar apoio em instituições como o Programa de Transtornos Alimentares do IPq HCFMUSP (Ambulim) e a Associação Brasileira de Transtornos Alimentares (Astral).
