Uso de tadalafila como 'pré-treino' cresce e acende alerta médico
Uso de tadalafila como ‘pré-treino’ cresce e acende alerta médico

Uso de tadalafila como ‘pré-treino’ cresce e acende alerta médico

Popularidade crescente e riscos ocultos Um fenômeno crescente em vestiários de academias tem chamado a atenção de especialistas: o uso da tadalafila, medicamento conhecido por tratar a disfunção erétil e sintomas urinários da hiperplasia prostática benigna, como um suposto ‘pré-treino’. A prática, disseminada em redes sociais, baseia-se na ideia de que a inibição da enzima […]

Resumo

Popularidade crescente e riscos ocultos

Um fenômeno crescente em vestiários de academias tem chamado a atenção de especialistas: o uso da tadalafila, medicamento conhecido por tratar a disfunção erétil e sintomas urinários da hiperplasia prostática benigna, como um suposto ‘pré-treino’. A prática, disseminada em redes sociais, baseia-se na ideia de que a inibição da enzima PDE-5 pela substância poderia aumentar o fluxo sanguíneo para os músculos, gerando a sensação de ‘pump’ – o inchaço muscular popularizado na cultura fitness. Contudo, essa hipótese carece de respaldo científico e expõe usuários a perigos que vão desde quedas de pressão até lesões musculares.

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revelam um aumento expressivo na venda de tadalafila no Brasil. Em 2025, foram comercializadas 74,9 milhões de caixas, um salto de 15,8% em relação a 2024 (64,7 milhões). Para se ter uma dimensão da escalada, em 2015, as vendas somavam apenas 3,2 milhões de unidades. Esse crescimento coincide com o aumento da procura pelo medicamento em check-ups, especialmente por indivíduos jovens e saudáveis, conforme observado pelo cardiologista Fernando Costa, coordenador da UTI do Hospital Santa Paula.

A ciência por trás do ‘pump’ e os riscos cardiovasculares

A lógica por trás do uso off label da tadalafila como ‘pré-treino’ reside em seu mecanismo de ação. Ao inibir a enzima PDE-5, o medicamento promove o relaxamento dos vasos sanguíneos, facilitando o fluxo de sangue. A teoria é que esse aumento na circulação sanguínea para os músculos durante o exercício resultaria no desejado ‘pump’. No entanto, endocrinologistas como Pedro Guilherme Cabral, do Hospital Brasília, desmistificam essa percepção. ‘Estudos em atletas saudáveis demonstraram que a tadalafila não melhora parâmetros de aptidão física’, afirma Cabral. Pelo contrário, um estudo chegou a indicar um aumento em marcadores de dano muscular. O ‘pump’, segundo ele, é apenas uma sensação temporária e não um indicativo de hipertrofia ou ganho de força.

Os riscos associados ao uso indiscriminado da tadalafila são, no entanto, bem documentados. ‘A tadalafila possui propriedades vasodilatadoras sistêmicas que podem causar quedas transitórias na pressão arterial’, explica Cabral. Em situações de exercícios de alta intensidade, especialmente em ambientes quentes, onde a vasodilatação periférica e a demanda cardiovascular já estão aumentadas, o uso do medicamento pode levar a tonturas, hipotensão e até síncope (desmaio). Pacientes com histórico de infarto recente, AVC, angina instável ou insuficiência cardíaca grave devem evitar o medicamento, pois ele é contraindicado nestes casos.

Sinais de alerta e a busca por resultados seguros

Embora eventos graves sejam raros em indivíduos saudáveis, certos sintomas que surgem durante ou logo após a prática de atividade física, após o uso de tadalafila, exigem atenção médica imediata. Dor no peito, tontura intensa ou sensação de desmaio iminente podem indicar uma queda significativa da pressão arterial. Outra condição de urgência é o priapismo, uma ereção persistente e dolorosa por mais de quatro horas, que pode causar danos permanentes se não tratado rapidamente. ‘Na ausência de evidência de benefício para desempenho esportivo ou ganho de massa muscular, o que resta é apenas a exposição a riscos desnecessários’, sentencia Cabral.

Especialistas enfatizam que os verdadeiros pilares para o ganho de massa muscular e melhoria do desempenho físico residem em estratégias consolidadas pela medicina esportiva: treino adequado, nutrição balanceada, descanso apropriado e, acima de tudo, paciência. Não existem atalhos seguros, e a busca por resultados rápidos através de medicamentos não indicados pode comprometer a saúde a longo prazo.

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