Descoberta em florestas isoladas revela diversidade oculta de camaleões
Pesquisadores sul-africanos anunciaram a identificação de quatro novas espécies de camaleões do gênero Nadzikambia, encontradas em florestas de montanha isoladas em Moçambique. Essas áreas, conhecidas como “ilhas do céu” devido à sua inacessibilidade, abrigam uma biodiversidade que permaneceu desconhecida pela ciência por muitos anos. As novas espécies se somam às já conhecidas N. mjalensis (do Malawi) e N. baylissi (de Moçambique), ambas pertencentes ao mesmo gênero.
O isolamento geográfico desses habitats, que remonta a cerca de 6 milhões de anos, permitiu que populações distintas evoluíssem independentemente, dando origem às novas espécies. A descoberta, publicada na revista Vertebrate Zoology, é fruto do trabalho das pesquisadoras Krystal Tolley, da Universidade de Joanesburgo, e Werner Conradie, do Museu de Porto Elizabeth e da Universidade Nelson Mandela. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Vertebrate Zoology.
A importância da genética na identificação de espécies crípticas
As novas espécies de camaleões, popularmente chamados de camaleões-selvagens, são predominantemente arborícolas e passam a maior parte do tempo no dossel das árvores, o que, aliado à sua notável capacidade de camuflagem, dificultou sua detecção. “Ninguém olhava de fato para cima para procurá-las. E como os camaleões se camuflam tão bem ao seu habitat, não era óbvio encontrá-los”, explica a pesquisadora Krystal Tolley. A semelhança externa entre as espécies tornou a diferenciação visual praticamente impossível.
Para superar esse desafio, os cientistas analisaram 46 espécimes depositados em museus na África do Sul e em Londres. A pesquisa combinou dados morfológicos, como o número de escamas e detalhes anatômicos, com análises genéticas de DNA nuclear e mitocondrial. “É aqui que entram as ferramentas de análise de DNA. Embora possam parecer semelhantes externamente, as espécies possuem assinaturas específicas em seu DNA que são únicas de cada uma”, afirma Tolley, destacando a confiança na distinção das novas espécies.
Nomes que celebram contribuições científicas e alertam para conservação
Em reconhecimento a figuras proeminentes na ciência, duas das novas espécies foram nomeadas em homenagem a mulheres que fizeram contribuições revolucionárias. O N. franklinae foi batizado em honra à química britânica Rosalind Franklin, pioneira na elucidação da estrutura do DNA. Outra espécie, N. goodallae, homenageia a renomada primatóloga Jane Goodall, conhecida por seu trabalho com chimpanzés e ativismo ambiental. As outras duas espécies são a N. evanescens, cujo nome reflete a condição ameaçada da espécie, e a N. nubila, que remete às montanhas nebulosas onde habita.
Os autores da pesquisa ressaltam a importância dessas homenagens, especialmente no contexto da conservação. O desmatamento acelerado em Moçambique ameaça os ecossistemas únicos onde essas espécies recém-descobertas vivem. A escolha dos nomes busca, assim, chamar a atenção para a necessidade de proteção desses habitats e para o trabalho de ativistas ambientais. “Infelizmente, as inspiradoras mulheres da ciência que dão nome à espécie do Monte Namuli [N. franklinae] e do Monte Ribáuè [N. goodallae] não viveram até a data de publicação deste artigo, mas ainda assim nos sentimos honrados em apresentar esta homenagem a elas”, declararam os pesquisadores.
