Novas evidências reforçam a tese de que os primeiros humanos nas Américas focaram seus esforços na caça de animais de grande porte.
Os primeiros seres humanos a povoar o continente americano concentraram sua dieta quase que exclusivamente na caça de grandes mamíferos da Era do Gelo. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado na revista Science Advances, que analisou dados de dezenas de sítios arqueológicos na América do Norte e no Cone Sul. A pesquisa, que não incluiu o território brasileiro em sua análise detalhada, sugere uma estratégia de subsistência altamente especializada por parte desses antigos caçadores-coletores.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores de instituições no Canadá, Estados Unidos e Argentina, com a coordenação de Ben Potter, da Universidade do Alasca, e James Chatters, da Universidade McMaster. A equipe se debruçou sobre os ossos de animais encontrados em três grandes regiões: o Alasca, o interior da América do Norte e a América do Sul. Nessas duas últimas áreas, a análise levou em conta a predominância de tecnologias de caça conhecidas como cultura Clovis e a sigla FPP (ponta de projétil rabo-de-peixe).
Artefatos como os da cultura Clovis e as pontas FPP eram projetados para serem usados em lanças ou dardos, indicando uma preferência por caçar à distância. O auge do uso dessas tecnologias remonta a aproximadamente 13.500 a 11.600 anos atrás. Essa evidência reforça a antiga hipótese do “overkill”, que sugere que a caça intensiva por parte dos primeiros humanos, ao chegarem a um continente “virgem”, teria contribuído significativamente para a extinção da megafauna do Pleistoceno, como mamutes, mastodontes e preguiças gigantes.
Especialização e Extinção da Megafauna
A ideia de que os primeiros povoadores das Américas eram caçadores especializados de animais de grande porte não é nova. Ao longo do século XX, a tese do “overkill” ganhou força entre arqueólogos e paleontólogos, argumentando que os animais da megafauna, por não terem desenvolvido medo dos humanos, tornaram-se presas fáceis, levando à sua extinção. No entanto, essa teoria nunca se tornou um consenso absoluto, com outros pesquisadores apontando as intensas mudanças climáticas do fim da Era do Gelo como um fator igualmente, ou até mais, relevante para o desaparecimento desses animais.
O novo estudo buscou quantificar a dieta dos primeiros americanos, comparando a estratégia de caçadores-coletores especialistas, focados em poucas espécies, com a de generalistas, que exploravam uma gama mais ampla de recursos, incluindo vegetais. Os resultados indicam um predomínio claro da megafauna entre os animais abatidos nas três regiões estudadas, respondendo por mais de 90% da biomassa consumida. Isso descarta a hipótese de que a predominância de ossos de grandes animais seria apenas um artefato de preservação, já que mesmo em sítios com restos de animais menores, a megafauna continuava sendo a principal fonte de alimento.
Variações Regionais e o Caso Brasileiro
As espécies de megafauna mais caçadas variavam de acordo com o ambiente. No Alasca, o mamute-lanoso era o principal alvo. No interior da América do Norte, outra espécie de mamute, sem pelos, predominava. Já no Cone Sul, preguiças-gigantes e gonfotérios (parentes extintos dos elefantes) eram as presas mais comuns.
Um ponto de interesse é que, na América do Sul, o Brasil ainda apresenta dados que não se encaixam completamente nesse padrão. Embora evidências recentes apontem para a caça de megafauna, sítios arqueológicos mais antigos, como os de Lagoa Santa (MG), sugerem que os primeiros habitantes da região podem ter adotado estratégias de subsistência mais generalistas, explorando uma variedade maior de presas e recursos vegetais. Essa diferença pode indicar adaptações locais ou a necessidade de mais pesquisas para compreender a complexidade da ocupação humana inicial no território brasileiro.
