A parentalidade como estética: como pais e mães criam suas marcas pessoais online
A chegada de um filho traz consigo uma avalanche de decisões práticas. Mas, em um mundo cada vez mais digital, uma nova questão surge: que tipo de pai ou mãe serei na internet? A criação dos filhos agora se mistura à construção de uma **identidade digital**, transformando a maternidade e a paternidade em estéticas a serem trabalhadas como marcas pessoais.
Em plataformas como o TikTok, criadores de conteúdo cunham termos para suas abordagens, como a “butter mom” ou a “cozy mom”, cada uma com seu estilo e filosofia. Essa tendência vai além de compartilhar momentos, tornando-se uma forma de expressar gostos, valores e até mesmo uma busca por **controle em meio ao caos** da parentalidade.
Essa curadoria digital da parentalidade, segundo especialistas, reflete um desejo de **sinalizar classe social e crenças**, além de ser uma resposta à pressão do marketing para “fazer tudo certo”. Conforme aponta Hayley DeRoche, escritora e criadora do fenômeno “sad beige mom”, “É essencialmente uma sinalização de virtude de quem você é como pai ou mãe”, em declaração que resume essa nova faceta da criação de filhos na era digital. A informação é baseada no conteúdo divulgado por fontes como The New Yorker.
A ascensão da “Sad Beige Mom” e outras estéticas parentais
A “sad beige mom” (mãe bege triste) se popularizou ao satirizar a obsessão por uma paleta de cores neutras e minimalistas em produtos infantis, que muitas vezes pareciam desprovidos de alegria. A criadora desse movimento, Hayley DeRoche, observou que “Eram todos em tons de bege e incrivelmente monocromáticos”, descrevendo imagens de marketing onde crianças apareciam apenas olhando para brinquedos em “tons de bege e incrivelmente monocromáticos”.
De Roche, que transformou sua observação em um livro, “Dress Your Baby in Sage and Taupe: A Handbook for the Sad Beige Parent”, explica que essas estéticas parentais, embora curadas para o consumo digital, frequentemente evocam uma **nostalgia por uma infância pré-internet**. O foco recai em brincadeiras criativas e na redução do tempo de tela, algo que ressoa tanto com millennials quanto com a geração Z.
O desejo de controle e a representação de gostos pessoais
Para muitos pais, a criação de uma estética parental online é uma forma de **recuperar um senso de controle**. “Acho que a parentalidade coloca as pessoas em um lugar onde de repente você perde o controle”, afirma De Roche. “Você pode ter toda a sua vida muito sob controle, e então esse bebê chega, e de repente você poderia ter lido 800 livros e ainda não sabe o que está fazendo.”
Kyle Chayka, redator da The New Yorker e pai que descreve sua estética como “bebê aveia”, complementa essa ideia. Ele sugere que, embora os pais possam ter menos tempo para cuidar da própria aparência, podem investir em apresentar seus bebês com roupas minimalistas e brinquedos de bom gosto. “Os bebês são representantes dos nossos gostos pessoais, já que não podem tomar nenhuma decisão por si”, observa Chayka.
Marketing, classe social e a busca pela “parentalidade perfeita”
As estéticas parentais online frequentemente se conectam com o marketing, que explora o desejo dos pais de demonstrarem que estão fazendo as escolhas certas. “Eles querem mostrar ao mundo que você está comprando as coisas certas, assinando os currículos e métodos certos de criar uma criança”, comenta De Roche, ligando essa prática à **sinalização de classe social**.
Essa busca por uma parentalidade idealizada, refletida nas redes sociais, pode criar uma pressão adicional sobre os pais. No entanto, para muitos, a criação de uma identidade parental online serve como uma válvula de escape criativa e uma forma de processar as complexidades da paternidade, transformando o cotidiano em uma narrativa visualmente atraente.