Menopausa: Por que o medo da terapia hormonal é maior que o risco real?
Menopausa: Por que o medo da terapia hormonal é maior que o risco real?

Menopausa: Por que o medo da terapia hormonal é maior que o risco real?

A terapia hormonal da menopausa (THM) é uma aliada eficaz para aliviar sintomas incômodos como ondas de calor, insônia e secura vaginal, mas o receio de seus riscos, especialmente o de câncer, ainda é um grande obstáculo para sua adoção. Especialistas apontam que o medo é, em muitos casos, desproporcional aos benefícios oferecidos pelo tratamento, […]

Resumo

A terapia hormonal da menopausa (THM) é uma aliada eficaz para aliviar sintomas incômodos como ondas de calor, insônia e secura vaginal, mas o receio de seus riscos, especialmente o de câncer, ainda é um grande obstáculo para sua adoção. Especialistas apontam que o medo é, em muitos casos, desproporcional aos benefícios oferecidos pelo tratamento, quando bem indicado e acompanhado.

O receio em relação à terapia hormonal da menopausa (THM) é palpável. Ao propor o tratamento, a ginecologista Lúcia Costa Paiva, da Unicamp, relata que a primeira pergunta das pacientes é quase sempre sobre o risco de câncer. “Aí a gente explica o risco, ela entende. Três meses depois, ela volta dizendo: ‘Nossa, se soubesse, tinha vindo antes’”, conta. A eficácia da THM em aliviar sintomas como as ondas de calor é um dos pontos mais elogiados pelas pacientes. “Tirou com a mão, doutora, aquele remédio que a senhora me deu. A senhora é ótima”, costumam dizer, ao que a médica responde: “É que o hormônio é muito efetivo em reduzir esse sintoma”.

A THM consiste na reposição de hormônios, principalmente estrogênio, que caem drasticamente na menopausa. Essa queda é responsável por uma série de desconfortos que afetam a qualidade de vida de muitas mulheres. Contudo, a relação entre a THM e o câncer exige cautela e nuances. Enquanto o estrogênio isolado pode estimular o crescimento do tecido uterino em mulheres que ainda possuem o órgão, aumentando o risco de câncer de útero, a adição de progesterona atua como um fator de proteção. No caso do câncer de mama, a terapia é contraindicada para quem já teve o tumor, pois alguns tipos se alimentam de hormônios para crescer.

A grande preocupação com o câncer de mama ganhou força no início dos anos 2000, após um estudo de grande repercussão sugerir um aumento significativo no risco. No entanto, pesquisas posteriores desmistificaram essa associação, demonstrando que os resultados originais foram distorcidos por características da população estudada. Na prática, o risco real para a maioria das mulheres é consideravelmente menor.

Um marco importante nessa reavaliação ocorreu em fevereiro deste ano, quando a FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos Estados Unidos, retirou o alerta de “caixa preta” – o mais severo – de seis medicamentos para THM. Essa mudança, que removia alertas sobre riscos de câncer de mama, doenças cardiovasculares e demência, sinaliza uma nova perspectiva sobre a segurança da terapia.

No Brasil, embora os medicamentos não contenham um alerta similar ao que era adotado pela FDA, a decisão da agência americana é vista como um passo positivo para dissipar o medo. “Há muito tempo esperávamos algo nesse sentido, vai nos ajudar dando mais segurança para as mulheres procurarem o tratamento e deve ajudar até os próprios médicos, porque nem todo médico está bem informado em relação aos avanços da terapia hormonal da menopausa”, afirma Lúcia Costa Paiva. No entanto, especialistas alertam que a THM não é para todas e que o uso deve ser individualizado, com avaliação criteriosa dos riscos e benefícios.

Apesar das evidências científicas, o receio persiste. Um estudo brasileiro de 2022 com 1.500 mulheres indicou que apenas 22% das que procuraram ajuda médica para sintomas da menopausa receberam indicação de THM, contrastando com a percepção de especialistas sobre a utilidade do tratamento. O endocrinologista Alexandre Hohl ressalta que a informação inicial sobre os riscos da THM era “parcialmente verdadeira”, baseada em um estudo com falhas metodológicas e características específicas da população estudada. Estudos posteriores, ao isolarem grupos de risco e utilizarem hormônios mais modernos, mostraram que os benefícios da THM superam os riscos para a maioria das mulheres que necessitam do tratamento.

Quais são os riscos reais e quando a THM é indicada?

O risco de câncer de mama com a THM existe, mas é pequeno e depende de fatores como o tipo de hormônio, a dose e o tempo de uso. “Se a gente pegar dois grupos de mulheres, mil que não usam hormônio e mil que usam, no grupo com THM vai ter um caso a mais, uma em mil”, exemplifica Paiva. A especialista enfatiza que o benefício para mulheres com sintomas intensos é significativamente maior do que esse risco mínimo. A THM é contraindicada em casos de câncer de mama ativo ou passado, doenças cardiovasculares recentes, trombose ou doenças hepáticas ativas. Mulheres com histórico familiar de câncer de mama devem ter o caso avaliado individualmente.

A indicação principal da THM é o alívio dos sintomas da menopausa, como ondas de calor, suores noturnos, insônia, ressecamento vaginal e dores na relação sexual. É também indicada para mulheres que entram na menopausa precocemente, antes dos 40 anos. Embora possa trazer benefícios secundários como melhora do humor e redução do risco de diabetes e doenças cardiovasculares, esses não são os motivos primários para a prescrição. A perda de libido, por exemplo, é uma queixa complexa que requer investigação aprofundada e nem sempre é resolvida com terapia hormonal.

A chamada “janela de oportunidade” para iniciar a THM tem se ampliado, passando de cinco para até dez anos após o início da menopausa, com possibilidade de reavaliação individualizada. O momento de parar o tratamento é definido em consulta médica, com base na avaliação contínua de riscos e benefícios, sem uma obrigatoriedade de interrupção após um determinado tempo de uso, especialmente para quem iniciou o tratamento mais cedo.

Apesar da crescente aceitação e da melhora nas evidências científicas, o acesso à THM no Brasil ainda enfrenta barreiras. Um estudo de 2022 apontou que apenas 22,3% das mulheres com sintomas de menopausa receberam prescrição de THM, e a duração média do tratamento foi de apenas oito meses, sendo ainda menor para mulheres de classes sociais menos favorecidas. A falta de disponibilidade dos medicamentos no SUS e o alto custo para aquisição particular contribuem para que muitas mulheres não consigam realizar o tratamento de forma adequada, mesmo quando indicado.

Experiências como a de Sônia Santos, que teve sua qualidade de vida transformada pela THM após sofrer com ondas de calor intensas, contrastam com a de Ucha Aratangy, que teve uma experiência negativa com o tratamento. Esses relatos ilustram a diversidade de respostas individuais à terapia e a importância da individualização do tratamento, sempre com acompanhamento médico.

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