A ciência moderna, marcada por avanços tecnológicos e a disseminação rápida de informações, não está imune a revisões e correções que, por vezes, atingem até mesmo os pilares de seu conhecimento. Um exemplo peculiar dessa dinâmica é o caso de Max Planck, o renomado físico alemão e pai da teoria quântica, cujas contribuições fundamentais para a física, responsáveis por tecnologias como celulares e GPS, foram objeto de retratação post mortem.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Retraction Watch e pela revista Science.
Em um cenário onde os termos “cancelamento” e “inteligência artificial” se tornaram onipresentes, o caso de Planck, que faleceu em 1947, revela uma faceta inesperada dessa tendência. Embora a ideia de “cancelamento” em sua forma social seja recente, a prática de “retraction” – a retratação de artigos científicos – é um mecanismo estabelecido para corrigir o registro científico. Contudo, as retratações de Planck não se deram por fraude ou imperícia, mas sim por questões editoriais e de direitos autorais, aplicadas por ferramentas modernas.
O Legado Quântico e a Sombra do “Cancelamento”
Max Planck (1858-1947) é célebre pela introdução da constante de Planck em 1900, um conceito que revolucionou a física ao postular que a energia se propaga em unidades discretas, os “quanta”. Essa descoberta lhe rendeu o Prêmio Nobel de Física em 1918 e pavimentou o caminho para o desenvolvimento da mecânica quântica e suas inúmeras aplicações tecnológicas. No entanto, o físico agora figura na lista “Cancelamentos de ganhadores do Prêmio Nobel” mantida pelo Retraction Watch, ocupando a quarta posição com duas retratações, ao lado de outros laureados.
É crucial notar que a inclusão nesta lista não implica condenação definitiva. Muitas retratações ocorrem por erros não intencionais, por vezes a pedido dos próprios autores, ou mesmo contra a vontade destes. O caso de Planck, contudo, é singular, pois ele jamais foi acusado em vida de má conduta científica. As objeções e reinterpretações de suas ideias sempre foram de natureza teórica e filosófica, e não indicavam erros que invalidadassem seus achados.
Questões Editoriais e Aplicação Anacrônica de Padrões
As retratações de Planck, conforme relatado pela revista Science, parecem ter sido desencadeadas por incidentes ocorridos em 1940 e 1942. O primeiro caso envolveu uma crítica do filósofo Aloys Müller sobre a concepção de realidade de Planck em seu artigo “Ciência Natural e o Mundo Exterior Real”. A resposta de Planck, publicada no mesmo periódico, teria levado a editora Springer a cancelar o artigo por infração de direitos autorais. O segundo incidente, em 1942, refere-se à republicação de um ensaio de Planck como capítulo de livro, o que foi interpretado como autoplagio.
Historiadores como Yves Gingras e Mahdi Khelfaoui apontam que a aplicação desses padrões éticos e editoriais atuais a práticas da época pode ser considerada anacrônica. A hipótese mais provável é que esses “cancelamentos” póstumos tenham sido impulsionados por robôs de inteligência artificial e algoritmos de busca por violações de direitos autorais, ferramentas que, ironicamente, só existem graças à revolução quântica iniciada pelo próprio Planck.
