Exame de sangue promete prever Alzheimer anos antes, entenda por que médicos pedem cautela
Um simples exame de sangue pode revolucionar o diagnóstico precoce da doença de Alzheimer. A promessa é identificar o risco de desenvolver demência anos, ou até décadas, antes dos primeiros sinais de perda de memória.
Essa nova classe de testes de biomarcadores, já com duas aprovações pela FDA (agência reguladora dos EUA) para diagnóstico em pacientes sintomáticos, está sendo estudada para prever o risco em estágios ainda mais iniciais.
Cientistas investigam se esses exames podem antecipar o surgimento dos sintomas de demência com até 20 anos de antecedência, coincidindo com o desenvolvimento de tratamentos que visam prevenir ou retardar o declínio cognitivo. Conforme informações divulgadas por especialistas na área, os resultados de ensaios clínicos com alguns medicamentos são esperados para 2027.
Como os testes funcionam e detectam o Alzheimer?
A doença de Alzheimer no cérebro é caracterizada pela presença de duas proteínas: beta-amiloide e tau. Quando disfuncionais, elas formam placas e emaranhados que danificam os neurônios. As placas amiloides podem se formar até 20 anos antes dos sintomas, enquanto os emaranhados de tau surgem mais tarde, frequentemente coincidindo com o início do comprometimento cognitivo.
Tradicionalmente, o diagnóstico de Alzheimer é confirmado por exames de PET e testes de líquido cefalorraquidiano. No entanto, esses métodos são caros e invasivos, o que motivou a busca por uma alternativa mais acessível: o exame de sangue. Inicialmente, os testes focados em amiloide no sangue apresentaram dificuldades devido à complexidade de medição e à presença de amiloide de outras fontes não cerebrais.
A descoberta crucial foi que exames de sangue medindo formas modificadas da proteína tau, como pTau181 ou pTau217, podem indicar o acúmulo de amiloide no cérebro. Isso ocorre porque a tau começa a se modificar aproximadamente na mesma época em que as placas amiloides se formam. Especialistas acreditam que as placas amiloides desencadeiam essas modificações na tau, sinalizando um risco aumentado de desenvolver emaranhados e declínio cognitivo.
Precisão dos testes em pacientes com sintomas de demência
Para pessoas que já apresentam sintomas de demência, os testes de sangue demonstraram uma precisão de cerca de 90% na detecção da presença de placas amiloides. Isso auxilia os médicos a determinar se o Alzheimer é a causa do comprometimento cognitivo ou se outra doença deve ser considerada.
A precisão do teste está diretamente ligada à quantidade de tau modificada detectada no sangue. Níveis baixos indicam uma probabilidade muito pequena de depósitos de amiloide no cérebro, enquanto níveis altos sugerem uma chance significativa. Contudo, em casos com níveis intermediários, os especialistas recomendam exames de PET ou de líquido cefalorraquidiano para confirmação diagnóstica.
Cautela com testes para pessoas sem sintomas
O uso de exames de sangue para rastrear indivíduos com risco de desenvolver Alzheimer no futuro gera grande entusiasmo, com algumas empresas já oferecendo testes diretos ao consumidor. No entanto, especialistas entrevistados para esta matéria desaconselham o uso em larga escala por enquanto.
Um dos principais motivos é a menor precisão dos testes em pessoas sem comprometimento cognitivo. Embora um resultado negativo seja um forte indicativo da ausência de sinais de Alzheimer no cérebro, um resultado positivo pode ter uma chance de até 50% de ser um falso positivo, segundo estimativas de especialistas.
Além disso, para aqueles que já possuem placas amiloides no cérebro, as opções de tratamento ainda são limitadas. Intervenções no estilo de vida, como atividade física, podem ajudar a reduzir os níveis de tau no sangue e retardar o desenvolvimento dos emaranhados, mas a eficácia em longo prazo ainda está sob investigação.
O futuro dos exames de sangue na prevenção do Alzheimer
Muitos especialistas vislumbram um futuro onde os exames de sangue serão amplamente utilizados para rastreamento pré-demência, semelhante a mamografias ou colonoscopias. Pesquisadores estão trabalhando para aprimorar a capacidade preditiva desses testes, incorporando fatores de risco como idade, sexo, raça e histórico familiar.
A esperança é que, com o desenvolvimento de tratamentos eficazes que removem placas amiloides do cérebro, a identificação precoce de indivíduos em risco se torne crucial. Se medicamentos que limpam as placas amiloides se mostrarem eficazes em ensaios clínicos, como os que estão em andamento, a intervenção precoce poderia impedir a formação de emaranhados de tau e, consequentemente, a morte de neurônios, prevenindo o declínio cognitivo.
Contudo, essa estratégia depende dos resultados dos ensaios clínicos. Estudos anteriores com versões similares de medicamentos não foram eficazes em prevenir ou retardar a demência em pessoas com risco. Como ressaltam os especialistas, embora seja um momento de grande expectativa, os dados científicos serão determinantes para confirmar a eficácia e a aplicabilidade futura desses exames na luta contra o Alzheimer.