Washington sedia debates sobre possível sobretaxa a produtos brasileiros
O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) iniciou nesta segunda-feira (6) uma audiência pública crucial que pode determinar a imposição de uma nova tarifa de 25% sobre exportações brasileiras para o mercado americano. O evento, com duração de dois dias em Washington, D.C., conta com a participação de representantes de entidades setoriais brasileiras, empresas e figuras políticas, incluindo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ao longo de 14 painéis, as discussões abordarão argumentos de ambos os lados: as alegações das entidades brasileiras contrárias à nova taxação e as demandas de grupos americanos que a defendem. O senador Flávio Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo também se inscreveram para defender a rejeição das tarifas, argumentando que a medida poderia beneficiar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Representando o setor produtivo brasileiro, confirmaram presença nomes como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), além de associações como Abimaq e Cecafé, e empresas de peso como Weg, Bauducco, Nestlé, Coca-Cola e Suzano. O governo brasileiro, paralelamente, mantém negociações diplomáticas e ministeriais para tentar evitar a aplicação da sobretaxa, cogitando, inclusive, a redução de impostos de importação sobre produtos americanos sem concorrência nacional.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo USTR.
Motivações americanas e contrapontos brasileiros
As justificativas apresentadas pelo governo americano para a investigação que pode levar à nova tarifa incluem decisões judiciais brasileiras relacionadas a plataformas digitais dos EUA e o avanço de sistemas de pagamento nacionais, como o PIX. Alegações de falhas na proteção da propriedade intelectual, combate à pirataria e lentidão na concessão de patentes também são pontos levantados pelos americanos.
Do lado americano, grupos de pressão ligados aos setores agropecuário e siderúrgico, como o Fundo Jurídico de Ação de Pecuaristas e Criadores de Gado da América (R-CALF USA) e a Associação de Fabricantes de Aço dos Estados Unidos, exercem influência para o endurecimento das medidas comerciais contra o Brasil.
Impacto nas exportações e próximos passos
Apesar da ameaça de novas tarifas, os exportadores brasileiros têm buscado diversificar seus mercados. Dados recentes da Secretaria de Comércio Exterior indicam um crescimento de 3,7% nas exportações para os Estados Unidos em junho, o primeiro avanço desde a aplicação do tarifaço anterior em julho do ano passado. No entanto, o volume embarcado nesse período caiu 6,6%, sugerindo que o aumento no faturamento se deve mais à valorização dos produtos do que a um aumento na quantidade exportada.
A investigação comercial concluída pelo USTR em junho apontou supostas barreiras e práticas desleais por parte do Brasil. Além da tarifa de 25%, o relatório também menciona alegadas falhas no combate ao trabalho forçado, o que poderia elevar a sobretaxa total para até 37,5%. A decisão final sobre a imposição das novas tarifas dependerá da conclusão das audiências e da análise do governo americano sobre os argumentos apresentados por todas as partes envolvidas.
