A gastrite autoimune, uma condição onde o sistema imunológico ataca o próprio estômago, foi diagnosticada no empresário americano Bryan Johnson. Conhecido por suas buscas extremas por rejuvenescimento, Johnson compartilhou em suas redes sociais que seu estômago “está devorando a si mesmo”, alertando para a gravidade da doença. Diferentemente da gastrite comum, cujas causas geralmente são externas, a forma autoimune surge de uma disfunção do próprio organismo.
Conforme explica Fauze Maluf Filho, gastroenterologista e endoscopista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, gastrite é a inflamação da mucosa que reveste o estômago, confirmada por biópsia. Fatores como consumo excessivo de álcool, uso de anti-inflamatórios e a infecção pela bactéria H. pylori são causas frequentes da gastrite comum. No entanto, na gastrite autoimune, o sistema imunológico passa a produzir anticorpos contra as próprias células do estômago, como se fossem um invasor.
A hipótese mais aceita para o surgimento da gastrite autoimune é uma infecção viral prévia. Após a eliminação do vírus, o sistema imunológico, por semelhança entre os tecidos, continua a atacar a mucosa gástrica. Johnson atribuiu seu diagnóstico a hábitos alimentares de infância e estresse na vida adulta, mas Maluf Filho ressalta que não há base científica para essa conexão, embora má alimentação e estresse possam causar desconforto gástrico.
Sintomas e Diagnóstico
Na maioria dos casos, a gastrite autoimune é assintomática. Quando os sintomas aparecem, são frequentemente indiretos e ligados a outras condições associadas. É comum que a doença se manifeste em pacientes com outras patologias autoimunes, como vitiligo e tireoidite. Um sinal de alerta pode ser uma anemia sem causa aparente, decorrente da deficiência de vitamina B12. A absorção desta vitamina depende do fator intrínseco, produzido pelas células do estômago; sua destruição pela inflamação compromete a absorção, levando à anemia em estágios avançados.
O diagnóstico definitivo de gastrite, seja autoimune ou não, só é possível por meio de biópsia. A endoscopia bidirecional com múltiplas biópsias foi o exame que confirmou a condição em estágio inicial no caso de Johnson. Não há cura para a gastrite autoimune, mas o acompanhamento médico foca no alívio dos sintomas, como a reposição de vitamina B12 e ferro, quando necessário. Recomenda-se também a realização de endoscopias periódicas a cada dois ou três anos.
Riscos Associados
Pacientes com gastrite autoimune apresentam um risco aumentado para o desenvolvimento de dois tipos de câncer gástrico: o adenocarcinoma, mais agressivo, e o tumor neuroendócrino. Por essa razão, o acompanhamento médico com endoscopias regulares é fundamental. Maluf Filho alerta que cânceres do aparelho digestivo são, em geral, doenças silenciosas, cujos sintomas só se manifestam em estágios avançados. Por isso, recomenda-se a realização de endoscopia digestiva alta periodicamente a partir dos 40 anos, assim como exames preventivos para outras doenças. A partir dos 45 anos, sugere-se a investigação de câncer colorretal, com opções como o teste de sangue oculto nas fezes, disponível no SUS.
