Pesquisadores Mapeiam Redes de Estradas Pré-Colombianas no Acre, Revelando Civilização Antiga
Uma colaboração entre cientistas brasileiros e finlandeses desvendou uma impressionante rede de estradas antigas no Acre, com cerca de 350 km de extensão. Construídas por grupos indígenas séculos antes da chegada dos europeus, essas vias demonstram um planejamento cuidadoso e múltiplas funções, conectando monumentos misteriosos e povoados aos rios da região.
O estudo detalhado desse achado arqueológico foi publicado em abril deste ano no prestigiado periódico especializado Antiquity. A pesquisa utiliza tecnologia de ponta e validações em campo para trazer à luz aspectos desconhecidos da história pré-colombiana na Amazônia.
“Quanto mais a tecnologia e as observações avançam, mais vamos percebendo a presença de estradas e caminhos e a conexão entre eles e os monumentos”, afirma Alceu Ranzi, coautor do estudo e pesquisador da Universidade Federal do Acre. As descobertas reforçam a complexidade das sociedades que habitaram a região muito antes de sua colonização.
Rede Viária e Geoglifos: Conexões Reveladas por Satélite
A equipe utilizou imagens de satélite de diversas fontes, combinadas com expedições de campo, para mapear uma área de 135 mil quilômetros quadrados no Acre. Esta região tem sido palco de descobertas de centenas de geoglifos, desenhos geométricos em grande escala no solo, como quadrados, círculos e losangos.
Os geoglifos, caracterizados por valetas que podem atingir centenas de metros, delimitam espaços que arqueólogos interpretam como terreiros cerimoniais. A ausência de artefatos domésticos sugere que esses locais eram usados para festividades e encontros sociais, e não para moradia.
A hipótese mais aceita é que essas áreas eram originalmente bambuzais, que os povos antigos manejavam através de queimadas para criar os espaços cerimoniais. As datações indicam que essa prática se iniciou séculos antes de Cristo e perdurou até por volta do ano 1000 d.C., período associado à chamada civilização Aquiry.
Planejamento e Orientação: Estradas Retas e Alinhadas
O mapeamento revelou um predomínio de estradas largas, com mais de 15 metros de acostamento a acostamento, totalizando 634 casos, em comparação com 321 caminhos mais estreitos. A maioria segue trajetos retos e frequentemente alinhados com os pontos cardeais, indicando o uso de conhecimentos astronômicos para sua orientação.
Predominam vias mais curtas, com até 500 metros, mas exemplos de alguns quilômetros, chegando a 5,5 km, também foram identificados. Uma sequência de estradas sugere a conexão entre povoados a até 30 km de distância.
Essa rede viária está ligada a fases posteriores de ocupação indígena, após a civilização Aquiry, a partir do século XIII. Nessa época, construíram-se “mounds”, pequenos morros artificiais que serviam como centros de aldeias e pontos de partida para os caminhos.
Destinos das Vias: Rios, Geoglifos e Mistérios
Cerca de 40% das estradas mapeadas levam às margens dos rios, evidenciando a importância da água para o transporte e a conexão. Na região de Boca do Acre, por exemplo, foram encontradas 12 estradas distintas, sugerindo um ponto estratégico para a ligação com outras partes da Amazônia.
Outros 10% das estradas terminam em geoglifos e outras estruturas de terra escavada. Ao se aproximarem desses locais, as vias frequentemente se abrem em leque, possivelmente para realçar a grandiosidade dos terreiros cerimoniais.
O aspecto mais intrigante é que quase metade das estradas identificadas não possui um ponto de chegada aparente. Pesquisadores especulam que elas poderiam levar a áreas de plantio ou a pontos estratégicos na mata, essenciais para a subsistência das aldeias.
O Futuro da Pesquisa: Lidar e Novos Desvendamentos
“Esse povo viveu aqui, por alguma razão desapareceu na bruma do tempo, e a floresta cobriu tudo”, resume Ranzi sobre os construtores dos geoglifos. Embora o desmatamento tenha tornado muitas estruturas visíveis, o pesquisador aposta no uso da tecnologia Lidar para novas descobertas.
O Lidar, que utiliza pulsos de laser para penetrar o dossel da floresta, pode revelar modificações no solo ocultas pela vegetação. A expectativa é que essa tecnologia revele conexões ainda mais intensas entre os geoglifos e a rede de caminhos antigos, aprofundando nosso entendimento sobre as civilizações pré-colombianas do Acre.