A eleição de Cleitinho Azevedo (Republicanos) ao governo de Minas Gerais marca o início de um novo capítulo na política estadual. Com 55,4% dos votos válidos conquistados no primeiro turno, o senador eleito já coordena os trabalhos de transição, enquanto o grupo político que administrou o estado desde 2019 se depara com um cenário de incertezas e redefinição de estratégias. A derrota de Mateus Simões (PSD) e o desempenho do partido Novo alteraram significativamente o panorama político mineiro, evidenciando também o crescimento expressivo do PL, impulsionado pela votação de Nikolas Ferreira para deputado federal. O PL garantiu 21 cadeiras na Câmara dos Deputados e outras 21 na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O Novo, por outro lado, não elegeu deputados federais pelo estado e manteve apenas duas cadeiras estaduais.
A futura gestão de Cleitinho Azevedo terá como um de seus primeiros desafios transformar sua popularidade em capacidade de gestão. O vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão, ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), foi encarregado de coordenar a equipe de transição. Esta comissão, composta por profissionais com vasta experiência em administração pública, setor privado e diversas áreas de governo, já dá pistas sobre a composição da próxima administração. Entre os nomes estão André Abreu Reis, ex-secretário de Planejamento de Belo Horizonte; Bruno Westin, com passagens pelo Tesouro Nacional; Ana Lúcia de Assis Simões, ex-reitora da UFTM; e o deputado federal eleito Gleidson Azevedo, irmão de Cleitinho, além de membros do gabinete do senador. As reuniões setoriais de transição estão previstas para iniciar em 23 de outubro, com a área da saúde, seguidas por infraestrutura, educação, desenvolvimento econômico e segurança pública. Discussões sobre a Fazenda, o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e planejamento estão agendadas para novembro.
Governabilidade e Contas Públicas: Os Desafios de Cleitinho
A expressiva vitória eleitoral de Cleitinho Azevedo não o isenta da necessidade de construir uma base parlamentar sólida. Apesar de o Republicanos ter eleito quatro deputados estaduais, o PL se configura como a maior bancada na Assembleia Legislativa mineira, seguido pelo PT com 15 cadeiras. Especialistas apontam que o cenário atual oferece condições para a formação de uma maioria parlamentar, com uma possível aproximação entre o Republicanos e o PL, reflexo da convergência entre as legendas em nível nacional. A reunião de Cleitinho com Flávio Bolsonaro (PL) reforça essa perspectiva. O cientista político Adriano Cerqueira sugere que a gestão de Cleitinho pode surpreender pela sua pragmatismo e equilíbrio. Contudo, a situação fiscal de Minas Gerais se apresenta como um dos principais testes para a nova administração. O projeto de orçamento estadual para 2027, enviado pelo governo Mateus Simões, prevê um déficit de R$ 8,869 bilhões. A renegociação da dívida com a União e a necessidade de conciliar investimentos com o equilíbrio das contas públicas serão prioridades cruciais. Cerqueira ressalta que, apesar das condições políticas favoráveis, a capacidade de Cleitinho em gerenciar crises será um ponto de atenção, dada a sua inédita experiência no comando do Poder Executivo estadual.
O comentarista político Rodrigo Lopes pondera que ainda é cedo para avaliar se o governador eleito conseguirá traduzir sua popularidade em gestão e governabilidade eficazes. Ele enfatiza a necessidade de Cleitinho adotar uma postura de gestor com poder de decisão, focando em um ajuste fiscal e na escolha de uma equipe competente. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo portal Gazeta do Povo.
O Futuro Incerto de Mateus Simões e os Rumos do Novo
A derrota eleitoral de Mateus Simões, apontado como sucessor político de Romeu Zema (Novo), deixa seu futuro político em aberto. Simões, que terminou a disputa em quarto lugar com 530.292 votos, havia declarado anteriormente que encarava a política como um “experimento sociológico”, sem depender de mandatos eletivos. Sua trajetória como vice-governador e sua participação nas decisões da gestão Zema, no entanto, não foram suficientes para construir uma candidatura competitiva. Adriano Cerqueira atribui o resultado à dificuldade de Simões em edificar uma liderança eleitoral própria, apesar de sua reconhecida competência técnica e administrativa. A candidatura teria se apoiado excessivamente na projeção política do então candidato presidencial. Rodrigo Lopes, por sua vez, aponta a forma como a candidatura foi construída, com pouca articulação e difusão do nome, como um dos principais fatores para o resultado adverso, abrindo espaço considerável para Cleitinho.
Paralelamente, o partido Novo, após quase oito anos no comando do governo estadual, enfrenta um resultado limitado nas eleições mineiras. Apesar de ter mantido as duas cadeiras na Assembleia Legislativa com a reeleição de Dr. Maurício e Zé Laviola, o partido não conseguiu eleger representantes para a Câmara dos Deputados por Minas Gerais. O desempenho contrasta com a projeção de Romeu Zema, que, em sua candidatura presidencial em 2026, obteve 98.407 votos em Minas. Adriano Cerqueira avalia que a força eleitoral de Zema sempre superou a do partido, e muitos de seus apoiadores optaram por votar em Flávio Bolsonaro para presidente. Rodrigo Lopes sugere que a personalidade inovadora do Novo, que elegeu Zema em 2018, tem se diluído ao longo do tempo, cedendo espaço ao movimento bolsonarista e perdendo sua identidade.
O presidente estadual do Novo, Christopher Laguna, entretanto, defende que a meta nacional do partido, superar a cláusula de barreira, foi alcançada com a eleição de dez deputados federais. Em Minas, Laguna reconhece que a expectativa de eleger deputados federais não foi cumprida, mas destaca o crescimento da estrutura municipal e a eleição de dois deputados estaduais. Ele atribui parte das dificuldades ao expressivo desempenho de Nikolas Ferreira, que concentrou votos do eleitorado de direita. Laguna ressalta ainda o fortalecimento da estrutura municipal do Novo em Minas, com um aumento significativo de vereadores, prefeitos e vice-prefeitos.
Divergências Internas Exibem Disputas no Novo Mineiro
O Novo em Minas Gerais também lida com questionamentos sobre a condução de sua estrutura estadual. Sabrina Sarreta, ex-presidente do diretório municipal de Uberaba, deixou o partido após divergências com a direção estadual, criticando a perda de autonomia e a priorização de interesses pessoais de lideranças do partido em detrimento dos objetivos partidários. Ela alega que a direção estadual teria privilegiado os interesses do grupo político de Mateus Simões, prejudicando a formação de candidaturas e o fortalecimento das bases. Sabrina, que agora preside o Republicanos em Uberaba, participou da campanha de Luís Eduardo Falcão e indicou nomes para a equipe de transição. As divergências também envolveram a candidatura de Marco Antônio Costa (Superman) ao Senado, cuja construção foi marcada por desacordos e indefinições. Christopher Laguna, presidente estadual do Novo, reconhece a existência de divergências naturais em um partido, mas as atribui a disputas internas e expectativas não atendidas durante os anos em que o Novo esteve no governo. Ele defende os resultados alcançados pela legenda, como o aumento de filiados e a ampliação da representação municipal. Laguna também antecipa um novo processo de escolha de direção partidária nos próximos meses, com foco na renovação. Ele rebate a crítica sobre o prejudício à candidatura de Superman, afirmando que o partido abriu espaço para sua postulação.
