Canto de araponga e seriema atinge volume de britadeira e motosserra
Canto de araponga e seriema atinge volume de britadeira e motosserra

Canto de araponga e seriema atinge volume de britadeira e motosserra

A natureza pode ser surpreendentemente barulhenta, e duas aves brasileiras provam isso com seus cantos estrondosos. A araponga (Procnias nudicollis) e a seriema-de-perna-vermelha (Cariama cristata) foram registradas emitindo sons com volume comparável ao de uma britadeira ou motosserra, atingindo picos de 122,4 decibéis, segundo um estudo publicado na revista científica Evolution. Esses níveis sonoros, medidos […]

Resumo

A natureza pode ser surpreendentemente barulhenta, e duas aves brasileiras provam isso com seus cantos estrondosos. A araponga (Procnias nudicollis) e a seriema-de-perna-vermelha (Cariama cristata) foram registradas emitindo sons com volume comparável ao de uma britadeira ou motosserra, atingindo picos de 122,4 decibéis, segundo um estudo publicado na revista científica Evolution. Esses níveis sonoros, medidos a um metro de distância, colocam essas espécies entre as mais barulhentas já documentadas pela ciência, superando até mesmo vocalizações de animais como elefantes e leões.

O biólogo João Menezes, da Universidade de Massachusetts Amherst (EUA) e principal autor do estudo, destacou que, embora a araponga tenha registrado o valor máximo individual, a seriema e a araponga-da-amazônia (Procnias albus) também se destacam em termos de média de volume. A araponga-da-amazônia, já conhecida por sua potência vocal, também alcança 121,2 dB. Essas descobertas foram possíveis graças a novas metodologias que permitem medir com precisão a amplitude sonora dos cantos das aves em seu habitat natural.

Desvendando a potência sonora das aves

O estudo, considerado a maior comparação de amplitude sonora entre espécies de aves até o momento, explorou as características anatômicas que permitem esses cantos tão potentes. A siringe, um órgão vocal único das aves, evoluiu de forma singular nessas espécies, funcionando de maneira semelhante ao tubo de instrumentos musicais como o trombone ou trompete. Esse órgão ajuda a concentrar a energia sonora em frequências específicas, facilitando a produção de volumes elevados.

Além da siringe, os pesquisadores identificaram a largura do bico e o tamanho geral da ave como fatores cruciais. Bicos mais largos atuam como campânulas, projetando o som de forma mais ampla, enquanto aves de maior porte possuem gargantas mais robustas e músculos capazes de gerar maior pressão de ar. Essa combinação de adaptações anatômicas permite que animais relativamente pequenos produzam sons de intensidade impressionante.

Metodologia inovadora e diversidade brasileira

A medição da amplitude sonora em campo representava um desafio técnico considerável até recentemente. Para superar isso, Menezes e sua equipe empregaram um telêmetro a laser, similar ao usado por golfistas, para determinar a distância exata da ave, e um medidor de nível sonoro capaz de isolar o canto desejado do ruído ambiente e de outras vocalizações. A pesquisa iniciou nos Estados Unidos durante o silêncio das ruas causado pela pandemia de Covid-19, mas o foco principal se voltou para o Brasil, dada a sua vasta diversidade de espécies.

Os pesquisadores registraram a amplitude do canto de 123 aves no total. Em contraste com os cantos ensurdecedores da araponga e da seriema, os beija-flores apresentaram os sons mais suaves, com cerca de 50 decibéis, comparáveis ao barulho de uma chuva moderada. A araponga, encontrada na Mata Atlântica, e a seriema, habitante do Cerrado, destacaram-se em um espectro sonoro que vai do sussurro quase inaudível à potência comparável a máquinas industriais.

As gravações da araponga foram realizadas em áreas preservadas da Mata Atlântica, incluindo o Vale do Ribeira e a região metropolitana de São Paulo, além da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Já os cantos da seriema foram captados em Ibiúna, no interior de São Paulo. O estudo, que contou com a colaboração de ornitólogos como Gonçalo Cardoso da Universidade do Porto (Portugal) e o ecólogo Jeff Podos da Universidade de Massachusetts Amherst, abre novas perspectivas para a compreensão da evolução vocal em aves e a complexidade da comunicação sonora no reino animal.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados na revista científica Evolution.

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