Algoritmos de redes sociais podem intensificar sentimentos de tristeza e levar a conteúdos nocivos, aponta pesquisa
Para usuários que enfrentam momentos de tristeza, como após um término de relacionamento ou conflitos profissionais, o simples ato de navegar pelas redes sociais pode se tornar um gatilho para piorar o estado emocional. Uma análise conduzida por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), revelou que os algoritmos das plataformas são capazes de identificar a vulnerabilidade emocional dos usuários e, com base em seu comportamento digital, apresentar um fluxo constante de conteúdo que reforça esses sentimentos.
O estudo, que examinou mais de 8 mil vídeos do TikTok, indica que essa dinâmica pode, ao longo do tempo, saturar a linha do tempo do usuário com publicações cada vez mais nocivas. Em casos extremos, isso pode incluir conteúdos sobre automutilação e suicídio. A pesquisa destaca que, mesmo com interações mínimas, o algoritmo pode começar a recomendar esse tipo de material, uma vez que o tempo de permanência na tela é o principal indicador de interesse para a plataforma.
Um exemplo prático dessa dinâmica pode ser observado após o fim de um relacionamento. Ao acessar a rede social em um momento de fragilidade, o usuário pode se deparar com vídeos sobre como lidar com términos. Se ele dedica tempo a assistir a esses conteúdos, o algoritmo interpreta isso como um interesse e começa a exibir mais publicações relacionadas, como dicas para reconquistar um ex ou listas de erros que levam ao fim de um relacionamento. Essa exposição contínua pode reforçar pensamentos negativos e a chamada ruminação psicológica, um ciclo de pensamentos repetitivos sobre o problema.
O ciclo vicioso da ruminação e a falta de distinção algorítmica
Especialistas em saúde mental alertam que essa exposição excessiva a conteúdos sobre um mesmo tema pode criar uma falsa sensação de autoeducação ou resolução, enquanto na verdade apenas perpetua o estado de tristeza. Renato Gallo, pesquisador do Instituto de Psiquiatria da USP, explica que o algoritmo não regula a emoção, mas a utiliza para direcionar conteúdos que a pessoa tende a consumir. Essa confirmação da dor leva à ruminação, fazendo com que o usuário pense excessivamente no assunto. Vagner Rocha, psicólogo, complementa que essa ruminação, por sua vez, fornece mais insumos para o algoritmo intensificar as recomendações problemáticas.
A pesquisa da UCLA também aponta que o sistema algorítmico tem dificuldade em distinguir entre usuários que buscam ajuda e aqueles que expressam desespero. Mesmo quando um usuário procura apoio, conteúdos potencialmente prejudiciais podem aparecer lado a lado com material educativo. O estudo mediu o tempo até a primeira exposição a vídeos nocivos e constatou que, já no décimo vídeo exibido, menos de 29% das contas permaneciam livres desse tipo de material. Ao chegar ao 40º vídeo, entre 98,5% e 100% das contas haviam recebido pelo menos um vídeo com potencial de dano.
Riscos de desinformação e o efeito Werther
Os conteúdos mais recorrentes nesse cenário incluem positividade tóxica, autodiagnósticos sem base científica, desinformação sobre tratamentos e, de forma alarmante, materiais explícitos sobre suicídio e automutilação. Rodrigo Menezes Machado, psiquiatra e coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da USP, ressalta que essa exposição pode levar a diagnósticos equivocados, preocupações desnecessárias e gastos com tratamentos inadequados, além de afastar pessoas de intervenções médicas necessárias.
Machado também alerta para o risco do efeito Werther, ou contágio social, onde a exposição a conteúdos sobre suicídio pode influenciar comportamentalmente outros usuários por sugestão. Ele cita como exemplo o aumento de tentativas de suicídio após a série “13 Reasons Why”, da Netflix, especialmente entre indivíduos vulneráveis, um fenômeno que pode se repetir com a disseminação desse tipo de conteúdo nas redes sociais.
Como mitigar os efeitos negativos
O design das redes sociais, focado em manter o usuário engajado pelo maior tempo possível, aliado ao funcionamento dos algoritmos, cria um ciclo difícil de romper. A constante estimulação da dopamina no cérebro, responsável pelo sistema de recompensa, pode gerar dependência, fazendo com que o usuário sinta que precisa estar presente na plataforma para se sentir bem. Isso pode levar a sintomas como ansiedade e fadiga, além de uma sensação de escassez de energia ao final do dia.
Para combater esses efeitos, especialistas recomendam uma postura crítica em relação ao conteúdo consumido, entendendo que a realidade apresentada nas redes sociais é complexa e nem sempre aplicável a todos os contextos. Atividades fora do ambiente virtual, como exercícios físicos e encontros com amigos, são indicadas para momentos de crise. Além disso, o uso de ferramentas que programam bloqueios de aplicativos ou adicionam etapas de acesso pode ajudar a criar barreiras que dão ao cérebro tempo para reavaliar a necessidade de acessar a plataforma. A reflexão sobre se o tempo gasto nas redes sociais é uma escolha consciente ou um sinal de dependência é fundamental para uma relação mais saudável com a tecnologia.
