A promessa psicodélica e a barreira do preço
O potencial terapêutico de substâncias psicodélicas para o tratamento de transtornos mentais, como depressão e ansiedade, tem ganhado cada vez mais destaque na comunidade científica. No entanto, o caminho para a democratização desses tratamentos no Brasil esbarra em um obstáculo significativo: o alto custo. Especialistas temem que a regulamentação e a patenteabilidade de compostos como a psilocibina, derivada de cogumelos mágicos, possam criar um cenário onde o acesso a essas terapias se torne proibitivo para a maioria da população.
A perspectiva de comercialização de tratamentos psicodélicos nos moldes do modelo biomédico ocidental, que prioriza a propriedade intelectual, levanta sérias preocupações. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Compass Pathways, com seu composto COMP360 para depressão, projeta custos anuais na faixa de US$ 17 mil a US$ 22 mil, o que pode ultrapassar R$ 110 mil em valores convertidos. Esse patamar de preço, mesmo em um país com maior poder aquisitivo, já exclui milhões de pessoas sem seguro-saúde, e a situação seria ainda mais crítica no Brasil.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Psychedelic Alpha e análises de mercado.
O modelo de negócios e a exclusão social
O COMP360, uma formulação patenteada da psilocibina – substância encontrada em cogumelos conhecidos popularmente como “mágicos” –, é um dos tratamentos mais próximos de aprovação regulatória nos EUA. A Compass Pathways planeja precificar o tratamento de forma a garantir lucros expressivos, explorando o monopólio conferido pelas patentes. Essa estratégia, se replicada no Brasil, tornaria a terapia psicodélica um luxo inacessível para os milhões de brasileiros que sofrem com transtornos mentais resistentes a tratamentos convencionais.
No cenário brasileiro, a aplicação do modelo de precificação visto nos EUA, onde um tratamento com esketamina (Spravato) pode custar entre R$ 6 mil e R$ 10 mil por dose (sem contar os custos clínicos), resultaria em contas anuais que poderiam variar de R$ 180 mil a R$ 280 mil. Esse valor é equivalente a mais de uma década de trabalho para quem recebe um salário mínimo, evidenciando a gritante desigualdade de acesso que pode se instaurar.
A necessidade de alternativas acessíveis
Diante deste panorama, surge a urgência de se discutir modelos alternativos que garantam a acessibilidade às terapias psicodélicas. O Brasil, com sua rica história de uso tradicional de substâncias como o DMT, presente na ayahuasca e na jurema-preta, possui um terreno fértil para o desenvolvimento de abordagens mais inclusivas. A pesquisa e a regulamentação por parte de órgãos como o Ministério da Saúde, o SUS e a Anvisa precisam priorizar o bem-estar da população em detrimento de modelos puramente mercadológicos.
A depressão afeta milhões de brasileiros, com uma parcela significativa apresentando quadros resistentes a tratamentos convencionais. A falta de acesso a novas terapias promissoras, como as psicodélicas, pode perpetuar o sofrimento e empurrar indivíduos para a automedicação ou para práticas sem comprovação científica, aumentando os riscos à saúde. A busca por um equilíbrio entre a inovação terapêutica e a inclusão social é, portanto, um desafio premente para o país.