A esperança do governo na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que visa o fim da escala 6×1, com promessa de maior qualidade de vida para trabalhadores formais, enfrenta obstáculos significativos na corrida eleitoral. Analistas políticos ouvidos pela Gazeta do Povo apontam que, embora a medida tenha potencial para atrair parcelas da Classe C e eleitores que se abstiveram no primeiro turno, ela dificilmente será a “bala de prata” capaz de reverter a vantagem eleitoral e superar a rejeição consolidada ao governo.
A aprovação da PEC 221/2019, que busca reduzir a jornada de trabalho, é vista como uma vitória política para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A expectativa é que a proposta ressoe positivamente entre empregados do comércio e de serviços, que enxergam na ampliação do descanso semanal uma conquista concreta. A estratégia petista seria utilizar essa bandeira para mobilizar o eleitorado da Classe C, um segmento numeroso e heterogêneo da população brasileira, e também aqueles que não compareceram às urnas no primeiro turno, totalizando cerca de 33 milhões de eleitores aptos que se abstiveram.
No entanto, a percepção de que a PEC 6×1 pode ser um fator decisivo é relativizada por especialistas. O cientista político Flávio Santana, da Êxito Public Affairs, avalia que a medida pode até diminuir a diferença entre os candidatos, mas não o suficiente para garantir uma virada isoladamente. “A aprovação da PEC 6×1 pode até contribuir para reduzir a diferença entre os candidatos, mas dificilmente será suficiente, isoladamente, para superar a rejeição política e as posições eleitorais consolidadas”, afirmou Santana.
Divisões na Classe C e o peso da economia
A Classe C, descrita por Santana como um “verdadeiro caldeirão social”, engloba tanto trabalhadores assalariados quanto autônomos e pequenos empreendedores. Essa diversidade de interesses e objetivos políticos explica, em parte, o desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PL), que obteve a preferência de 53% desse segmento no primeiro turno, contra 37% de Lula, segundo levantamento do instituto Meio/Ideia. Enquanto trabalhadores formais podem se sentir atraídos pela promessa de mais tempo livre, a parcela autônoma e empreendedora tende a priorizar o crescimento econômico e a menor intervenção estatal, o que pode gerar resistência ao governo atual.
Eduardo Grin, cientista político da Fundação Getulio Vargas (FGV), sugere que a campanha de Lula pode explorar o receio de que Flávio Bolsonaro possa reverter a conquista da PEC 6×1, mobilizando assim alguns eleitores. Contudo, a complexidade desse eleitorado impede uma adesão automática. A frustração com a corrosão do poder de compra dos salários e a baixa qualidade dos serviços públicos também pesam na decisão de voto, contrapondo-se ao apelo imediato da PEC.
A aposta nos abstêmios e os limites da mobilização
O alto índice de abstenção no primeiro turno, que atingiu 21% do eleitorado, representa um contingente considerável que a campanha petista busca atrair. A aposta é que a PEC 6×1 possa convencer parte desse grupo, especialmente das classes C, D e E, a comparecer às urnas em favor de Lula. Grin aponta que a aprovação da medida pode mobilizar beneficiários do Bolsa Família que estão ingressando no mercado de trabalho, aproveitando a política de transição do programa.
Ainda assim, a divisão desses votos entre os candidatos é uma possibilidade real. Flávio Santana alerta que não há garantia de que a mobilização seja exclusivamente pró-Lula. Ele pondera que eleitores contrários à PEC, que não votaram no primeiro turno, também podem se mobilizar, e que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro podem se beneficiar, dependendo da região do país. A estratégia petista, ao tratar a PEC como um catalisador automático de votos, pode estar subestimando as transformações socioeconômicas do país e a fragmentação do eleitorado, que opera sob lógicas diversas onde o empreendedorismo individual e o ceticismo com promessas eleitorais também têm peso.
A promulgação da PEC 6×1 oferece fôlego e uma narrativa favorável à campanha de Lula. Contudo, os especialistas indicam que ela se mostra insuficiente para desmantelar a rejeição consolidada ao governo ou para reverter, por si só, a vantagem construída por Flávio Bolsonaro, evidenciando o complexo cenário eleitoral e os limites de apostas políticas em meio a um eleitorado multifacetado.
