A trajetória de Adria Santos, de atleta de elite a gestora social
Adria Santos, 51 anos, ostenta o título de maior medalhista paralímpica do Brasil, com um currículo impressionante que inclui seis medalhas de ouro em Jogos Paralímpicos, além de inúmeras outras conquistas. No entanto, sua jornada foi marcada por desafios, inseguranças e a necessidade de reinventar-se após o fim da carreira esportiva. Hoje, a ex-atleta dedica sua energia a um projeto social em Joinville (SC), onde lidera o Instituto Adria Santos, focado em oferecer oportunidades a crianças e adolescentes.
A transição para a categoria T11, que exige o uso de vendas para atletas com cegueira, foi um momento de profunda apreensão para Adria. Apesar de já ter conquistado o ouro em Barcelona em 1992, a mudança em 1994 a fez duvidar de sua capacidade. “Eu me senti impotente, não queria aceitar que teria de correr com uma venda nos olhos”, relembra. Essa insegurança, aliás, ecoa em uma pesquisa do Estúdio Clarice, que aponta que 27% das mulheres brasileiras duvidam da própria capacidade. Contudo, Adria superou o receio, adaptou-se e continuou a colecionar vitórias, provando sua força e determinação.
Ao longo de sua carreira, Adria Santos acumulou cerca de 600 medalhas, incluindo quatro ouros paralímpicos: um em Barcelona (1992), dois em Sydney (2000) e um em Atenas (2004). O sucesso no esporte a fez perceber seu próprio poder e a impulsionou a seguir em frente, com o apoio de sua equipe, amigos e família. Sua infância, vivida de forma lúdica, contrastava com a realidade de sua mãe, dona Matilde, que teve nove filhos, sendo quatro com deficiência visual, condição que também acomete Adria devido à retinite pigmentosa, astigmatismo e ceratocone.
A ausência de referências femininas no esporte paralímpico de sua época foi sentida, mas hoje Adria se orgulha de ser um exemplo de força para jovens atletas, especialmente meninas. Ver-se como inspiração lhe traz um sentimento de realização, sabendo que sua história pode encorajar outras a sonhar alto. Essa força interior a ajudou a lidar com a depressão que a acometeu após se aposentar das pistas em 2013, devido a uma lesão no menisco.
Da depressão à fundação do Instituto Adria Santos
Após a aposentadoria, Adria buscou ajuda profissional para superar a depressão e reencontrou o prazer em correr, inicialmente na rua e, posteriormente, competindo como paraciclista entre 2018 e 2019, enquanto cursava educação física. O grande sonho de sua vida se concretizou em 2022 com a fundação do Instituto Adria Santos, em Joinville, cidade onde reside desde 2003.
O instituto atende aproximadamente 130 crianças e adolescentes, de 6 a 12 anos, de escolas públicas, com e sem deficiência, oferecendo aulas de atletismo e atividades lúdicas. Adria também realiza palestras onde compartilha sua trajetória e a importância da inclusão. Ela reconhece que, como gestora, enfrenta desafios semelhantes aos que vivenciou como atleta, incluindo o preconceito e a necessidade de impor sua autoridade para ser respeitada.
Assim como 33% das mulheres entrevistadas pela pesquisa do Estúdio Clarice, Adria já precisou adaptar sua postura para ser ouvida. Ela afirma que, como mulher e pessoa com deficiência, a luta para provar sua capacidade é ainda mais intensa. No entanto, Adria se mantém firme, lembrando que sempre demonstrou seu poder através de suas ações, assim como fez nas pistas. Para os jovens de seu instituto, ela se vê como uma “fortaleza”, transmitindo a eles a segurança e a força que ela mesma construiu ao longo de sua vida.
