O corpo realmente guarda as marcas de traumas psicológicos? O debate científico por trás da popular frase
O corpo realmente guarda as marcas de traumas psicológicos? O debate científico por trás da popular frase

O corpo realmente guarda as marcas de traumas psicológicos? O debate científico por trás da popular frase

A frase “o corpo guarda as marcas” tornou-se um modo popular de descrever o impacto físico de experiências estressantes e traumáticas. No entanto, a ciência por trás dessa afirmação, popularizada pelo livro de Bessel van der Kolk, é mais complexa e controversa do que sugere a simplificação comum. O livro “O Corpo Guarda as Marcas”, […]

Resumo

A frase “o corpo guarda as marcas” tornou-se um modo popular de descrever o impacto físico de experiências estressantes e traumáticas. No entanto, a ciência por trás dessa afirmação, popularizada pelo livro de Bessel van der Kolk, é mais complexa e controversa do que sugere a simplificação comum.

O livro “O Corpo Guarda as Marcas”, do psiquiatra Bessel van der Kolk, tornou-se um best-seller e popularizou a ideia de que traumas psicológicos deixam um registro físico no corpo. Contudo, a tese central do livro vai além, sugerindo que memórias traumáticas residem no corpo de forma inacessível à consciência. Essa noção ecoa a controversa teoria das memórias reprimidas, que gerou um intenso debate científico nas décadas de 1990 e 2000, conhecido como “guerras da memória”. Na época, o consenso científico apontava para a fragilidade da ideia de que memórias traumáticas pudessem ser completamente apagadas da mente e recuperadas posteriormente, especialmente através de terapias sugestivas.

A preocupação atual reside no ressurgimento dessa ideia, agora ligada à noção de que o corpo armazena essas memórias, que emergiriam posteriormente através de sintomas físicos. O livro de van der Kolk, por exemplo, sugere a utilização de terapias alternativas, como yoga e terapia assistida por psicodélicos, para “liberar” ou “integrar” essas memórias supostamente ocultas, muitas vezes sem base científica sólida. Apesar de reconhecer que experiências traumáticas podem de fato afetar o sistema nervoso de maneiras duradouras, a comunidade científica alerta para os riscos de se basear em conceitos de memórias reprimidas, que podem levar à criação de falsas memórias.

É inegável que o estresse e o trauma podem ter manifestações físicas significativas. Há um amplo consenso de que o estresse agudo e crônico altera a química corporal, afetando hormônios como adrenalina, noradrenalina e cortisol. Essas alterações podem impactar a pressão arterial, a libido e a percepção de segurança do indivíduo. Para muitos, o trauma pode culminar em Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), cujos sintomas incluem náuseas, ataques de pânico, dificuldades respiratórias, distúrbios do sono e uma sensação constante de alerta.

A complexidade da memória e os perigos da sugestão

A pesquisa sobre a memória humana demonstra que ela não funciona como uma gravação fiel de eventos. Ao contrário, a memória autobiográfica é um processo reconstrutivo, moldado a cada vez que um evento é recordado. Fatores como o contexto atual, novas informações, emoções e até mesmo as expectativas de terceiros podem influenciar e distorcer o que lembramos. Essa plasticidade da memória é particularmente preocupante quando se utilizam técnicas terapêuticas que induzem estados sugestionáveis, como hipnose ou visualização guiada. Grandes organizações de psicologia já alertaram repetidamente que tais métodos, quando focados na recuperação de memórias supostamente enterradas, podem inadvertidamente implantar falsas memórias.

Terapias alternativas e o risco de exploração

Embora terapias como yoga e psicodrama possam oferecer benefícios no manejo do estresse para algumas pessoas com TEPT, a alegação de que elas acessam memórias reprimidas é onde reside a controvérsia. Essa ideia pode ser explorada comercialmente, com anúncios sugerindo que pesadelos ou insônia são decorrentes de traumas esquecidos, direcionando indivíduos a programas de coaching online pagos. A popularidade crescente dessas abordagens levanta preocupações sobre a falta de evidências científicas robustas que sustentem a eficácia na recuperação de memórias traumáticas.

O papel dos psicodélicos na terapia do trauma

Recentemente, terapias assistidas por psicodélicos, como MDMA e psilocibina, têm ganhado atenção. Em ambientes de pesquisa controlados, essas substâncias demonstraram potencial promissor. No entanto, do ponto de vista da memória, os psicodélicos apresentam desafios. Pesquisas indicam que eles podem aumentar a sugestionabilidade, tornando as pessoas mais receptivas a ideias externas e criando uma forte sensação de que as experiências vividas são profundamente reais. Essa combinação é arriscada, pois pode levar à formação e crença em falsas memórias. Relatos iniciais de terapias psicodélicas já apontam para o surgimento de memórias de trauma, com incertezas quanto à sua veracidade.

Pesquisas recentes nos Estados Unidos indicam que a maioria da população acredita na existência de memórias reprimidas e na ideia de que “o corpo guarda as marcas”. Essa crença, que parece se espalhar globalmente, reforça a importância de um olhar crítico e baseado em evidências científicas sobre os mecanismos da memória e os tratamentos para o trauma psicológico.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The Conversation.

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