Rios Vivos, Mortos e Renascidos: A Fascinante Jornada da Vida Aquática e a Crítica à Destruição Ambiental
A questão de saber se um rio pode estar vivo, como explorado por Robert Macfarlane em seu livro “Is a River Alive?”, ressoa profundamente em nossa percepção da natureza. Enquanto crianças parecem aceitar instintivamente a vitalidade de elementos naturais como rios, adultos muitas vezes necessitam de argumentos extensos para compreender essa conexão.
Para muitos paulistanos que cresceram na segunda metade do século XX, a experiência com rios como o Tietê e o Pinheiros foi marcada pela poluição extrema. A imagem de competições de remo ou natação nesses corpos d’água, contada por gerações mais velhas, soa como um conto distante, quase inacreditável diante da realidade de rios “assassinados”.
No entanto, a vida nos rios, mesmo quando parecerem mortos, guarda a capacidade de renascer. A metáfora de Heráclito, de que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, reflete a constante transformação da água. Assim como um rio pode passar de cloaca a um leito piscoso, a esperança reside na possibilidade de superação de períodos sombrios, sejam eles ambientais ou políticos.
Conforme informação divulgada em reportagem, a reflexão sobre rios vivos e mortos se estende por diversos cursos d’água pelo mundo, do Paraíba em Tremembé ao Tejo em Lisboa, passando pelo Xingu na Amazônia. Esta última experiência, em particular, documentada em reportagens sobre a construção da usina de Belo Monte, revela o trágico “assassinato” de um rio mítico para povos indígenas e para a memória dos irmãos Villas-Bôas, idealizadores do Parque Indígena do Xingu.
O Assassinato Silencioso da Volta Grande do Xingu
A documentação da Volta Grande do Xingu, realizada por terra, água e ar, em companhia do fotógrafo Lalo de Almeida, é comparada profissionalmente a expedições em regiões extremas como a Antártida ou o Ártico. Contudo, a experiência foi marcada pela constatação do desaparecimento de um ecossistema vital. A Volta Grande, outrora um fluxo caudaloso, secou, vítima de um processo descrito como um “assassinato premeditado e consumado”.
Causas da Morte e a Cúmplice Humanidade
A destruição da Volta Grande do Xingu é atribuída à busca por hidreletricidade ineficiente, associada à Norte Energia, e à mineração de ouro promovida pela Belo Sun. Estes empreendimentos, focados no desenvolvimento econômico a curto prazo, ignoraram o impacto devastador sobre a vida aquática e as comunidades que dependem desses rios. A situação levanta um questionamento incômodo: somos todos cúmplices no genocídio dos rios?
A Esperança da Redivisão e a Conexão Primordial
Apesar do cenário desolador, a ideia de que rios podem ressurgir, como o Tietê na fazenda Anhangüí, a mais de 500 km da capital paulista, oferece um vislumbre de esperança. A experiência de reencontrar esse rio, mesmo que transformado, reforça a noção de que a vida aquática possui uma resiliência notável. A capacidade de um rio se transmutar, de “cloaca em piscoso”, é uma poderosa metáfora para a possibilidade de recuperação e renovação ambiental.
Um Chamado à Consciência e Proteção
A vivência com rios que foram dados como mortos, mas que mostram sinais de vida, ou que foram tragicamente destruídos, como o Xingu, nos força a confrontar nossa relação com o meio ambiente. A percepção de que “os rios estão vivos, sim, até serem mortos” é um alerta urgente. A proteção dos corpos d’água não é apenas uma questão ecológica, mas também um imperativo ético para garantir a saúde do planeta e o futuro das próximas gerações, reconhecendo que a destruição ambiental é um reflexo de uma falha coletiva.