Anos de terapia sem resultado aparente: O que fazer quando o parceiro não muda?
Um casamento de 38 anos pode trazer à tona diversas complexidades, especialmente quando um dos parceiros se encontra em um longo processo terapêutico sem demonstrar as mudanças esperadas. Essa é a situação de uma leitora do The New York Times, que compartilha sua angústia com a terapeuta Lori Gottlieb.
A mulher relata que seu marido, aos 87 anos, frequenta terapia semanal há quase duas décadas, com o objetivo de tratar ansiedade generalizada, procrastinação e indiferença em relação à carreira. Apesar do tempo investido e do custo financeiro, ela não percebe alterações significativas em seu comportamento ou caráter.
Diante desse cenário, a leitora questiona se tem o direito de pedir ao marido que encerre o tratamento, especialmente considerando o impacto em sua vida e nas finanças do casal. A resposta da terapeuta, no entanto, convida a uma reflexão mais profunda sobre as expectativas, os objetivos da terapia e a dinâmica do relacionamento. A reportagem explora os pontos levantados pela especialista e oferece perspectivas para lidar com essa delicada questão.
O Custo da Terapia e as Prioridades do Casal
A terapeuta Lori Gottlieb, ao responder à leitora, inicia desmistificando a questão financeira. Ela aponta que, na terapia anterior, o custo para o casal era mínimo, já que a terapeuta aceitava apenas o reembolso do convênio, que raramente era solicitado pelo marido. A situação mudou com a terapia atual, remota, onde os pedidos de reembolso são feitos regularmente, mas o valor restante ainda representa um custo considerável.
Gottlieb sugere que, se o custo é o principal ponto de preocupação, o limite poderia ser buscar um terapeuta que se encaixe melhor no orçamento do casal. Contudo, ela também levanta a questão se o incômodo não é mais um ressentimento por desejar usar o dinheiro para outros fins, como viagens ou hobbies. Essa reflexão leva a um questionamento sobre o alinhamento das prioridades financeiras no casamento.
A especialista propõe um exercício de empatia: como a leitora se sentiria se a situação fosse invertida e seu marido desejasse interromper a própria terapia, mesmo que ela a considerasse benéfica? Essa perspectiva pode ajudar a entender se as prioridades do casal estão em sintonia ou precisam de negociação.
Progresso Terapêutico: O Que Realmente Significa Mudança?
A frustração da leitora em relação à falta de progresso visível é um dos pontos centrais da sua queixa. Ela espera uma “mudança no comportamento” do marido, mas a terapeuta ressalta que a raiz dos comportamentos que a incomodam pode estar em condições como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), tipo predominantemente desatento.
Gottlieb explica que, enquanto a medicação pode ser uma opção para alguns casos de TDAH, ela pode não ser indicada ou eficaz para todos, especialmente em idades mais avançadas. Nesses casos, a terapia pode não focar na eliminação dos sintomas, mas sim em ajudar o indivíduo a lidar com eles e a desenvolver estratégias de enfrentamento.
A terapeuta sugere que a busca do marido por terapia contínua pode ter objetivos diferentes daqueles que a leitora imagina, como regulação emocional, redução da ansiedade ou simplesmente um espaço seguro para discutir aspectos importantes da vida, como o envelhecimento e a reconciliação com experiências passadas.
Aceitação e Adaptação: O Caminho Para um Relacionamento Duradouro
A terapeuta Lori Gottlieb compara a resistência da leitora em relação à terapia do marido a um relacionamento anterior que terminou quando o noivo questionou a duração do tratamento dela. Ela sugere que chamar a terapia de “suporte emocional supérfluo” pode ecoar essa mesma desvalorização do processo terapêutico.
Gottlieb incentiva a leitora a considerar o que a terapia pode estar proporcionando ao marido, mesmo que não sejam mudanças drásticas. A simples persistência dele em continuar o tratamento, mesmo com os custos, indica que ele encontra algum benefício. A terapeuta também destaca uma pequena mudança positiva: o fato de ele agora estar solicitando os reembolsos do convênio.
A especialista propõe que, em vez de focar no que não mudou, a leitora pode tentar notar as pequenas evoluções ou o que poderia estar pior sem o suporte terapêutico. Além disso, sugere que a leitora considere delegar tarefas domésticas ou financeiras para aliviar sua própria carga, em vez de esperar que o marido mude completamente seus hábitos.
Amor Imperfeito: Celebrando a Jornada a Dois
Ao final de sua análise, Lori Gottlieb toca no ponto mais sensível da carta da leitora: o desejo de não ficar sem o marido, apesar de todas as dificuldades. Ela ressalta que, após 38 anos de casamento, é possível que a hora seja de aceitar as imperfeições e celebrar o tempo que ainda têm juntos.
A terapeuta oferece duas opções de como a leitora pode lidar com a situação. A primeira é impor um limite claro, declarando que não financiará mais a terapia após um ano e que ele deverá arcar com os custos e as questões terapêuticas por conta própria. Essa abordagem, no entanto, pode gerar mais conflitos.
A segunda opção, e talvez a mais encorajadora, é a da própria leitora em buscar uma mudança: aceitar que a terapia é útil para o marido, mesmo que ela não a veja dessa forma; deixar de lado o ressentimento financeiro e considerar o cuidado com a saúde mental dele; focar nas pequenas mudanças e em como a terapia pode estar prevenindo situações piores; e, finalmente, buscar soluções externas para as tarefas que se tornaram exaustivas. A terapeuta conclui que, com 87 anos e boa saúde, o marido ainda está presente, e o amor, com todas as suas forças e imperfeições, merece ser cultivado.