Cocô de Esquilos Ancestrais Revela Dieta Surpreendente com Mamutes e Outros Gigantes
Durante a corrida do ouro no Klondike, no Canadá, no início do século 20, exploradores encontraram mais do que ouro nas colinas geladas. Ossos de mamutes, dentes-de-sabre e bisões gigantes extintos eram comuns. No entanto, uma descoberta ainda mais fascinante estava escondida em túneis e tocas de esquilos-terrestres pré-históricos: milhares de pelotas de cocô congeladas.
Graças aos avanços na tecnologia de análise de DNA fossilizado, essas fezes antigas, preservadas no gelo por cerca de 700 mil anos, revelaram uma conexão surpreendente entre os pequenos roedores e os megafauna extintos. Um estudo recente publicado na revista Nature Communications mostrou que o DNA de mamutes-lanosos, dentes-de-sabre e bisões foi encontrado nessas fezes de esquilos.
Essa descoberta, que oferece um registro sem precedentes de ecossistemas antigos, foi detalhada pelo paleogeneticista Tyler Murchie, do Instituto Hakai, na Colúmbia Britânica, e autor principal do estudo. Conforme divulgado pelo The New York Times, a análise desses coprólitos congelados está fornecendo informações valiosas sobre a vida e a alimentação de animais que viveram há centenas de milhares de anos.
O Desafio da Preservação Genética em Fósseis Antigos
Obter dados genéticos de fósseis é um processo complexo. O DNA se degrada com o tempo, e a fossilização frequentemente substitui as moléculas orgânicas por minerais, transformando os restos em algo mais parecido com rocha. Contudo, as tocas de esquilos na região de Klondike, seladas e congeladas por um período imenso, criaram um ambiente ideal para a preservação.
As áreas que serviam como latrinas dentro dessas tocas permaneceram notavelmente intactas. A equipe de Murchie utilizou equipamentos de escalada e picaretas para coletar centenas de pelotas de fezes congeladas. Posteriormente, no Centro de DNA Antigo da Universidade McMaster, em Ontário, produtos químicos foram usados para isolar qualquer DNA remanescente.
Surpresas no Laboratório: O Cheiro e o DNA de Gigantes
Murchie compartilhou sua surpresa ao constatar que até as amostras mais antigas ainda exalavam um odor característico durante o processo de digestão química. “Eu não achava que elas ainda teriam cheiro, especialmente quando estamos falando de cocô de 700 mil anos”, relatou o cientista.
A surpresa aumentou quando os resultados genéticos foram revelados. Além de DNA de plantas, insetos e pequenos mamíferos, foram encontradas correspondências com mamutes-lanosos, caribus, lobos, pumas e cavalos selvagens. Isso sugere que os esquilos não apenas consumiam vegetação, mas também carne desses animais maiores.
Esquilos Carnívoros: Uma Nova Perspectiva Sobre Roedores
A ideia de um esquilo se alimentando de carne pode parecer inusitada, mas Murchie explica que a maioria dos roedores não é seletiva. “Se há muitas sementes, nozes e outros materiais vegetais por perto, eles vão comer isso, mas, se não houver, ou se por acaso houver uma carcaça por perto, definitivamente vão comer essa carcaça”, afirmou o paleogeneticista.
Kelsey Witt, paleogeneticista da Universidade Clemson, que não participou do estudo, elogiou a pesquisa por capturar “um instantâneo no tempo”. Essa análise oferece uma visão mais completa do ecossistema antigo do que apenas a análise de esqueletos fossilizados.
A Corrida Contra o Tempo no Permafrost Descongelante
No entanto, esse valioso registro do passado está em risco. Com o aumento da temperatura global e o consequente degelo do permafrost, amostras como esses coprólitos e o DNA que contêm estão ameaçados. Os pesquisadores estão em uma corrida contra o tempo para coletar e preservar o máximo possível de espécimes, antes que esse material genético único seja perdido para sempre no Yukon.