O novo contrabando paraguaio: canetas emagrecedoras tomam espaço de itens de luxo e tecnologia
As canetas emagrecedoras, fabricadas no Paraguai, emergiram como o mais recente item a dominar o mercado de contrabando para o Brasil, substituindo produtos que antes marcavam a fronteira, como videocassetes, eletrônicos e até uísque. Essa mudança reflete a evolução do comércio ilegal, que se adapta às novas demandas e oportunidades.
O cenário de apreensões, especialmente em Foz do Iguaçu, Paraná, tem registrado um crescimento exponencial. Órgãos como a Receita Federal e a Polícia Federal relatam um aumento expressivo na quantidade de ampolas e canetas emagrecedoras interceptadas, sinalizando um problema de saúde pública em ascensão.
Esses medicamentos, proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil, ganham popularidade devido aos preços acessíveis no Paraguai e à facilidade de compra, apesar de alertas sobre falsificações e riscos à saúde pública. Conforme informação divulgada pela Receita Federal, as apreensões de canetas e ampolas paraguaias em 2026 já superam em 860,8% o total registrado em 2025.
A história de um contrabando em constante transformação
O comércio na fronteira entre Brasil e Paraguai passou por diversas fases. Nos anos 1980, itens como videocassetes, toca-fitas automotivos, walkmans, TVs portáteis e brinquedos eram os mais procurados. Na década de 1990, com a abertura econômica do Brasil, o foco se deslocou para eletrônicos, incluindo microcomputadores, videogames e CD players automotivos.
Já nos anos 2000, câmeras digitais, celulares e equipamentos de informática de alto valor agregado dominaram o mercado. A chegada dos smartphones e videogames modernos consolidou ainda mais o Paraguai como um centro de abastecimento para o mercado brasileiro, influenciando até mesmo centros de comércio como a região da Santa Ifigênia, em São Paulo.
O perigo invisível das canetas emagrecedoras contrabandeadas
Atualmente, as canetas emagrecedoras, contendo princípios ativos como a tirzepatida, tornaram-se o carro-chefe do contrabando. Apesar de não superarem os cigarros em volume de apreensão, o crescimento do tráfico desses medicamentos representa um risco significativo à saúde pública. A falta de controle sanitário e a incerteza sobre a procedência e composição dos produtos são pontos de grande preocupação.
Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), alerta para as perdas em diversas frentes. “Quem perde? Todos. O consumidor, porque ninguém sabe que controle tem essa caneta. A indústria nacional perde, porque esse produto chega mais barato, é mais atrativo. E o erário, porque ele não paga imposto”, afirma.
Ações judiciais e a realidade da destruição
Uma ação coletiva busca autorizar a importação, para uso pessoal e com prescrição médica, de emagrecedores paraguaios no Brasil. Medicamentos como TG, Lipoless, Tirzedral, Tirzec, Lipoland, Gluconex e Slimex são mencionados no processo, alegando registro na autoridade sanitária paraguaia, a Dinavisa.
No entanto, a própria Dinavisa já emitiu alertas sobre a circulação de versões falsificadas desses medicamentos na região de fronteira, classificando a situação como de grave risco à saúde pública. As canetas apreendidas pela Receita Federal, como informado pelo órgão, são incineradas em fornos a mais de mil graus Celsius em Goiânia, garantindo que não voltem à circulação.
O auditor fiscal Osvaldo Toshio Yamashita, responsável pelo setor de destruição de produtos contrabandeados, destaca os motivos para a incineração: “As canetas precisam ser destruídas por várias situações. Primeiro, não sabemos onde foram produzidas. Segundo, em que condições de higiene e saúde esses medicamentos foram produzidos? Outra questão é: será que o que se diz na bula é o conteúdo que está nas ampolas e seringas? E como são transportados esses medicamentos? Não sabemos como esse material chega.”