Um alerta emitido por um smartwatch levou um morador de São José do Rio Preto (SP) a procurar atendimento médico e descobrir uma fibrilação atrial, uma arritmia cardíaca que aumenta o risco de AVC e outras complicações cardiovasculares.
O caso reacende uma dúvida cada vez mais comum: até que ponto os relógios inteligentes podem ser confiáveis para monitorar a saúde?
Segundo especialistas, esses dispositivos funcionam como ferramentas de rastreamento e monitoramento, mas não têm capacidade para confirmar diagnósticos. Eles podem identificar alterações em sinais fisiológicos e servir como um alerta para que o usuário procure avaliação médica.
Foi exatamente o que aconteceu com Robson Cardoso, de 35 anos. Enquanto estava em repouso, seu smartwatch registrou uma frequência cardíaca acima do normal e enviou dois alertas consecutivos. Preocupado, ele procurou atendimento médico e, após a realização de um eletrocardiograma, recebeu o diagnóstico de fibrilação atrial.
A frequência cardíaca em repouso normalmente varia entre 60 e 100 batimentos por minuto na maioria dos adultos. Quando os valores permanecem elevados sem uma causa aparente, como atividade física ou estresse, a situação merece investigação.
O que os smartwatches conseguem monitorar?
Os modelos mais modernos acompanham continuamente diversos indicadores de saúde, incluindo frequência cardíaca, oxigenação do sangue, temperatura corporal, qualidade do sono e nível de atividade física.
Alguns aparelhos também oferecem recursos semelhantes a um eletrocardiograma simplificado e conseguem identificar padrões compatíveis com determinadas arritmias, como a fibrilação atrial.
No entanto, especialistas reforçam que detectar uma alteração não significa diagnosticar uma doença. O smartwatch pode indicar que algo está fora do padrão, mas a confirmação depende de exames médicos específicos.
Limitações da tecnologia
Apesar dos avanços, os relógios inteligentes ainda apresentam limitações importantes.
Uma análise publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA) avaliou a função de notificação de hipertensão do Apple Watch e concluiu que a ferramenta identificaria apenas cerca de 41% das pessoas com pressão alta ainda não diagnosticada. Em outras palavras, quase seis em cada dez casos passariam despercebidos.
Para especialistas, o principal problema são os chamados falsos negativos, quando a pessoa possui uma condição de saúde, mas o dispositivo não detecta nenhuma alteração.
Por isso, os smartwatches não devem ser utilizados como método único de rastreamento ou diagnóstico. Eles podem auxiliar na identificação precoce de possíveis problemas, mas não substituem consultas médicas nem exames clínicos.
Quando um alerta deve preocupar?
A frequência cardíaca pode aumentar temporariamente por diversos motivos, como exercício físico, ansiedade, estresse, febre, dor, consumo de álcool, cafeína ou uso de determinados medicamentos.
No entanto, alertas frequentes, especialmente durante períodos de repouso, ou acompanhados de sintomas como palpitações, falta de ar, tontura, desmaio ou dor no peito, merecem atenção médica.
Também é importante lembrar que a ausência de notificações não garante que a saúde esteja em dia. Assim como os dispositivos podem emitir alertas sem que exista uma doença, eles também podem deixar de detectar alterações reais.
O que é fibrilação atrial?
A fibrilação atrial é uma das arritmias cardíacas mais comuns. Nessa condição, os átrios — as câmaras superiores do coração — passam a se contrair de forma desorganizada, provocando batimentos irregulares.
Algumas pessoas apresentam sintomas como palpitações, cansaço, falta de ar e desconforto no peito. Outras podem permanecer sem sintomas por anos.
O maior risco está na formação de coágulos sanguíneos dentro do coração, que podem se deslocar até o cérebro e causar um AVC. Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais.
Um aliado da saúde, não um substituto
Para os cardiologistas, os smartwatches devem ser vistos como ferramentas complementares. Eles ajudam a monitorar sinais do corpo, incentivam a busca por atendimento médico e podem contribuir para a detecção precoce de algumas condições.
No entanto, seu papel é servir como um alerta inicial. O diagnóstico e o tratamento continuam dependendo da avaliação de profissionais de saúde e de exames específicos.
No caso de Robson, o smartwatch não diagnosticou a fibrilação atrial, mas desempenhou um papel importante ao indicar que algo não estava normal, permitindo que o problema fosse identificado antes que causasse complicações mais graves.