Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) recruta participantes para ensaio clínico de fase 2, com potencial para integrar o SUS.
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) está conduzindo um estudo clínico inovador que busca voluntários para testar o uso de uma substância psicodélica no tratamento da depressão. A pesquisa, que visa construir um modelo de medicina psicodélica seguro, eficaz e acessível, com potencial para futura incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), está em fase de recrutamento em Natal, no Rio Grande do Norte.
Em breve, o estudo se expandirá para outras quatro grandes cidades brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza. Essa iniciativa multicêntrica é liderada pelo psiquiatra Marcelo Falchi, pesquisador do Instituto do Cérebro (ICe-UFRN) e professor de saúde mental da universidade. O objetivo é oferecer uma nova esperança para pacientes que não respondem a terapias tradicionais.
O ensaio clínico está recrutando um número limitado de participantes, inicialmente entre 40 e 60 pessoas na região de Natal. Os interessados devem preencher um questionário online para que os especialistas possam avaliar se atendem aos critérios de inclusão. A pesquisa representa um avanço significativo na área de saúde mental, explorando novas fronteiras terapêuticas.
Critérios e Segurança: Quem pode participar da pesquisa sobre depressão?
Para participar do estudo, os candidatos devem apresentar um quadro de depressão com intensidade moderada a grave, que não tenha respondido adequadamente aos tratamentos convencionais, como o uso de antidepressivos da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), a exemplo do escitalopram e da fluoxetina. A seleção rigorosa visa garantir a segurança e a eficácia da pesquisa.
Existem critérios de exclusão específicos para assegurar a integridade dos voluntários. Não podem participar pessoas com histórico pessoal de psicose, transtorno bipolar, uso recente e problemático de substâncias, condições cardiovasculares instáveis, epilepsia, doenças neurológicas ou pulmonares graves, além de gestantes e lactantes. Essas medidas são fundamentais para a condução segura do ensaio.
A Ciência por Trás do Estudo: DMT e a Busca por Alternativas Terapêuticas
O estudo com substâncias psicodélicas para depressão na UFRN tem suas raízes em pesquisas anteriores com a ayahuasca, conduzidas em parceria com o Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol-UFRN). Essas pesquisas, que já utilizavam um sistema duplo-cego com grupo controle por placebo, investigaram o potencial terapêutico do DMT (N,N-dimetiltriptamina), um composto psicodélico encontrado na ayahuasca e na jurema-preta.
No entanto, o uso da ayahuasca, que induz um estado alterado de consciência por várias horas, demandava monitoramento intensivo. Buscando uma alternativa mais prática e economicamente viável para eventual uso clínico, os pesquisadores evoluíram para o uso de DMT puro administrado por inalação. Este método reduz o efeito agudo, a chamada “viagem” psicodélica, para aproximadamente 10 a 15 minutos.
Experimentos realizados nos últimos quatro anos, com resultados publicados em periódicos científicos como o Neuropsychopharmacology, têm comprovado o efeito antidepressivo sustentado do DMT inalado. A metodologia envolve a administração de duas doses no mesmo dia: a primeira de 15 miligramas (mg) e uma segunda, mais potente, de 60 mg.
Ambiente Controlado e Experiência Sensorial para Voluntários
A sala destinada aos experimentos no Huol-UFRN foi especialmente preparada para proporcionar um ambiente seguro e acolhedor. Os participantes são acomodados em poltronas reclináveis e recebem fones de ouvido para escutar uma playlist cuidadosamente selecionada pelo multiartista Raphael Egel. Essa ambientação busca otimizar a experiência do voluntário durante a administração da substância e o período de observação pós-aplicação.
A pesquisa com DMT puro por inalação representa um avanço na medicina psicodélica, oferecendo uma abordagem mais controlada e de curta duração em comparação com compostos de ação prolongada. A UFRN, por meio do ICe e em colaboração com o Huol, demonstra um compromisso com a vanguarda da pesquisa em saúde mental, explorando novas vias para o tratamento da depressão.