SUS avança em tratamentos para AVC, mas acesso desigual e tempo são desafios
SUS avança em tratamentos para AVC, mas acesso desigual e tempo são desafios

SUS avança em tratamentos para AVC, mas acesso desigual e tempo são desafios

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem expandido a oferta de tratamentos para o Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico, a forma mais comum da doença que responde por cerca de 85% dos casos no Brasil. No entanto, o acesso a essas terapias e a eficácia do atendimento ainda são fortemente influenciados pela região onde o […]

Resumo

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem expandido a oferta de tratamentos para o Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico, a forma mais comum da doença que responde por cerca de 85% dos casos no Brasil. No entanto, o acesso a essas terapias e a eficácia do atendimento ainda são fortemente influenciados pela região onde o paciente reside e pela rapidez com que ele chega a uma unidade de saúde equipada. O AVC é uma das principais causas de morte e incapacidade no mundo, com cerca de 7,3 milhões de óbitos anuais globalmente, segundo a World Stroke Organization.

Para combater o AVC isquêmico, causado pelo bloqueio de um coágulo sanguíneo em uma artéria cerebral, o SUS oferece a trombólise, um tratamento com medicamentos que dissolvem o trombo. O protocolo nacional recomenda o uso do alteplase em até quatro horas e meia após o início dos sintomas. Antes da administração, uma tomografia é essencial para distinguir o AVC isquêmico do hemorrágico, que pode ser agravado pelo medicamento. Embora a trombólise tenha registrado um aumento em sua aplicação, passando de 1,5% das internações por AVCi em 2017 para 2,71% no primeiro semestre de 2025, segundo estudo baseado em dados do DataSUS, seu uso ainda é restrito a uma pequena parcela dos pacientes elegíveis.

Outra opção terapêutica é a trombectomia mecânica, procedimento minimamente invasivo que retira o coágulo com o auxílio de um cateter. Indicada para oclusões de grandes artérias cerebrais, pode ser realizada em até 24 horas após o início dos sintomas, dependendo de exames de imagem que avaliam a extensão do dano cerebral. Incorporada ao SUS em novembro de 2023, o número de trombectomias realizadas saltou de 37 em 2023 para 1.026 em 2025. Contudo, este avanço não se reflete em todo o território nacional, com a Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC) alertando para desigualdades regionais na oferta do procedimento.

Centros especializados e a distribuição geográfica

O Brasil conta com 129 centros de atendimento de urgência ao AVC habilitados pelo Ministério da Saúde. A maioria (56%) é privada sem fins lucrativos, seguida pelas públicas (41%). A distribuição desses centros é significativamente desigual: a Região Sudeste concentra 42% das unidades habilitadas, enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste possuem apenas 2% e 5%, respectivamente. Essa concentração geográfica limita o acesso ao tratamento, especialmente para populações mais distantes dos grandes centros.

A situação é ainda mais crítica para a trombectomia mecânica, com apenas 19 hospitais habilitados para realizar o procedimento pelo SUS. Desses, 37% estão localizados em São Paulo. A complexidade e o alto custo da trombectomia, que exige salas de hemodinâmica e equipes especializadas, são barreiras. O valor reembolsado pelo SUS muitas vezes não cobre integralmente os custos, dificultando a expansão da oferta, apesar de alguns estados complementarem o financiamento.

A importância do tempo e o reconhecimento dos sintomas

Mesmo com a disponibilidade de tratamentos avançados, o fator tempo é crucial. A interrupção do fluxo sanguíneo para o cérebro pode causar danos permanentes, e a agilidade no atendimento aumenta as chances de recuperação de funções como fala e movimento. No entanto, muitos pacientes demoram a procurar ajuda, seja por não reconhecerem os sintomas — como fraqueza em um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar, alterações na visão ou no equilíbrio — ou por buscarem unidades básicas de saúde que não possuem recursos diagnósticos como o tomógrafo.

Atrasos no atendimento também ocorrem devido à necessidade de transferência para hospitais com capacidade de tratamento, o que consome um tempo precioso. Diante de qualquer suspeita de AVC, a recomendação é acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pelo número 192. A central de regulação poderá orientar o encaminhamento mais adequado, considerando a gravidade do caso e a estrutura disponível na rede.

Para otimizar o tempo de resposta, alguns hospitais implementam estratégias como o uso de plataformas digitais para receber informações prévias de pacientes encaminhados pelo SAMU, permitindo que a equipe se prepare antes da chegada. Outras iniciativas incluem a utilização de telemedicina para discussões em tempo real com especialistas, agilizando o diagnóstico e a decisão terapêutica. A introdução de novas medicações, como a tenecteplase, que permite uma administração mais rápida que o alteplase, também contribui para simplificar o fluxo de atendimento. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Ministério da Saúde, DataSUS e Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC).

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