Cirurgia inovadora devolve função sexual a mulheres tratadas para câncer de vulva
Uma nova esperança surge para mulheres que enfrentam o câncer de vulva. Pela primeira vez, pesquisadores desenvolveram e aplicaram com sucesso uma técnica cirúrgica capaz de reconstruir o clitóris, com o objetivo de restaurar sua sensibilidade e a capacidade de atingir o orgasmo. Embora a reconstrução da vulva como um todo já seja uma prática estabelecida para preservar funções urinárias e vaginais, a atenção à recuperação da função sexual e do prazer através da reconstrução do clitóris era uma lacuna significativa no tratamento oncológico ginecológico.
O método, detalhado em artigo na revista científica Gynecologic Oncology, foi concebido por uma equipe do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda. A ginecologista oncologista Mieke ten Eikelder, uma das autoras, ressalta que, até então, o foco principal era a remoção do tumor, muitas vezes resultando no desaparecimento do clitóris sob camadas de pele e com pouca consideração pela qualidade de vida pós-tratamento ou pela possibilidade de orgasmo.
A retirada do tumor na região do clitóris frequentemente leva à remoção parcial ou total do órgão, impactando profundamente a sensibilidade erógena, a imagem corporal e o bem-estar psicossocial das pacientes. No Brasil, estima-se que entre 1.500 e 2.000 mulheres recebam o diagnóstico de câncer de vulva anualmente, segundo dados do DataSUS. A demora no desenvolvimento de técnicas de reconstrução clitoriana é atribuída à prioridade histórica do tratamento oncológico em garantir a sobrevida, conforme explica Alexandre Piassi Passos, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).
Um paralelo com a cirurgia reconstrutiva masculina
Especialistas comparam a situação atual da reconstrução genital feminina com o avanço na cirurgia reconstrutiva peniana. Técnicas de preservação e reconstrução do pênis após o câncer são estudadas e aplicadas há décadas, com resultados que demonstram sobrevida semelhante a procedimentos mais radicais e melhor preservação das funções urinária e sexual. A nova técnica para o clitóris sugere a necessidade de dedicar à reconstrução genital feminina a mesma atenção historicamente dada à masculina.
A complexidade anatômica do clitóris, com sua parte visível (glande) e o restante interno, cercado por uma rede delicada de nervos e vasos sanguíneos, representa um desafio técnico considerável. A insuficiência de estudos sobre a anatomia do orgasmo feminino ao longo do tempo também contribuiu para essa dificuldade.
A técnica e os resultados preliminares
O câncer de vulva, embora raro e representando cerca de 5% dos tumores ginecológicos, tem mostrado um aumento na incidência em idades mais jovens, associado à infecção pelo HPV. A técnica desenvolvida utiliza o método Foldès, originalmente empregado em casos de mutilação genital. Após a remoção do tumor, o cirurgião libera o ligamento que une o clitóris ao osso púbico, permitindo o reposicionamento do órgão preservado. A reconstrução da glande é feita com um enxerto da mucosa da parte interna da bochecha, tecido com características semelhantes à vulva, e uma nova capa de pele mimetiza o prepúcio.
O procedimento adiciona aproximadamente 15 minutos à cirurgia. Inicialmente, a equipe utilizava pele da própria vulva, mas a mucosa da bochecha demonstrou melhores resultados em termos de sensibilidade. O estudo acompanhou 18 mulheres, com idade mediana de 58 anos. Destaque para o fato de que dezesseis delas relataram conseguir ter orgasmo clitoriano após a cirurgia, em um período médio de 3,5 meses. As duas pacientes que não alcançaram o orgasmo haviam recebido enxerto de pele.
Apesar dos resultados promissores, os autores alertam que o estudo é preliminar, com um número pequeno de participantes e realizado em um único centro, sem grupo de comparação. A recuperação da sensibilidade pode variar, com períodos iniciais de hipersensibilidade ou diminuição, mas tende a se otimizar após um ano. Especialistas ressaltam que a possibilidade de reconstrução depende do tamanho do tumor e da quantidade de clitóris preservada.
Potencial de aplicação no Brasil
A nova técnica pode ser adaptada ao Brasil, pois emprega recursos já conhecidos na cirurgia reconstrutiva e não demanda tecnologia inacessível. A recomendação é que sua introdução ocorra em centros especializados, com treinamento adequado e colaboração entre cirurgiões oncológicos e plásticos, visando não apenas a cura do câncer, mas também a restauração integral da qualidade de vida e da função sexual das pacientes.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Gynecologic Oncology e pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
