Brasil implementa recolhimento automático de tributos em escala inédita com 'split payment'
Brasil implementa recolhimento automático de tributos em escala inédita com ‘split payment’

Brasil implementa recolhimento automático de tributos em escala inédita com ‘split payment’

Brasil se prepara para implementar o ‘split payment’, um sistema de cobrança automática de impostos em larga escala, com previsão de início em janeiro de 2027, como parte da reforma tributária. A medida visa reter a parcela referente aos novos tributos (CBS e IBS) no exato momento da transação comercial, alterando significativamente a dinâmica financeira […]

Resumo

Brasil se prepara para implementar o ‘split payment’, um sistema de cobrança automática de impostos em larga escala, com previsão de início em janeiro de 2027, como parte da reforma tributária. A medida visa reter a parcela referente aos novos tributos (CBS e IBS) no exato momento da transação comercial, alterando significativamente a dinâmica financeira das empresas ao reduzir o capital de giro imediatamente disponível.

O mecanismo do split payment, também conhecido como pagamento dividido, funciona por meio de uma ferramenta tecnológica que separa o valor do imposto do valor do produto no ato do pagamento. Na prática, quando um cliente realiza uma compra, o valor pago é automaticamente dividido: uma parte é destinada ao governo e a outra ao vendedor. Atualmente, as empresas recebem o valor total da venda e só repassam o imposto em datas posteriores, utilizando esse intervalo para financiar suas operações diárias. Com o novo sistema, essa margem de manobra financeira desaparece, pois o dinheiro do tributo nem chega a entrar na conta da empresa. Isso exigirá um planejamento de caixa muito mais rigoroso para garantir a liquidez necessária para as operações.

A abrangência do modelo brasileiro é considerada a mais ampla do mundo. Diferentemente de países como Polônia, Itália e República Tcheca, que aplicam o recolhimento automático de impostos em setores específicos ou em transações de alto risco de fraude, o Brasil planeja uma aplicação massiva. A intenção é conectar a separação do imposto diretamente aos meios de pagamento, como cartões de crédito e débito e transferências eletrônicas, abrangendo a maioria das operações de consumo. Especialistas alertam que essa aplicação generalizada é inédita e pode gerar sobrecarga nos sistemas tecnológicos, tanto públicos quanto privados, além de aumentar os custos de adaptação para pequenos negócios.

Riscos e lições internacionais

Um dos principais riscos apontados é a potencial asfixia financeira, especialmente para pequenas e médias empresas. A retenção imediata do imposto impede que o empresário utilize esses recursos para pagamentos a fornecedores ou salários antes do vencimento do tributo. Outro ponto de atenção são os créditos tributários. Em situações onde a empresa paga mais imposto na compra de insumos do que deve na venda do produto final, ela tem direito a reaver a diferença. Se o Fisco demorar para realizar essa devolução, a empresa pode enfrentar problemas de liquidez, necessitando recorrer a empréstimos bancários para manter suas atividades.

Experiências internacionais oferecem lições importantes. A Bulgária e a Romênia tentaram implementar modelos amplos de recolhimento automático, mas acabaram desistindo devido aos altos custos e ao surgimento de novas formas de fraude. A Polônia, por outro lado, conseguiu reduzir a evasão fiscal, mas precisou desenvolver mecanismos ágeis para a devolução de créditos tributários excedentes, a fim de evitar o colapso financeiro das empresas. A principal conclusão é que a tecnologia do governo precisa ser impecável. Um sistema de retenção eficiente, aliado a um canal rápido e eficaz para a devolução de valores indevidamente retidos, será crucial para o sucesso da medida e para evitar a desestruturação da atividade produtiva. A agilidade do Fisco em corrigir retenções incorretas e garantir a previsibilidade do fluxo de caixa será determinante.

As informações foram apuradas pela equipe de reportagem da Gazeta do Povo.

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