O microbioma intestinal humano, um ecossistema complexo com trilhões de microrganismos, tem passado por transformações drásticas nas sociedades industrializadas, alertam cientistas. Um estudo recente, publicado na revista Nature, identificou mais de 600 espécies de bactérias que eram comuns no intestino de nossos ancestrais caçadores-coletores, mas que hoje são raras ou inexistentes na maioria das populações modernas. Essas mudanças levantam preocupações sobre possíveis impactos negativos na saúde humana.
A pesquisa, liderada por Justin Sonnenburg, cientista especializado em microbioma da Universidade Stanford, sugere que a perda desses microrganismos pode estar ligada ao aumento de distúrbios como alergias e demência no mundo ocidental. “Até que ponto pode ser prejudicial o fato de termos alterado tanto nossos microbiomas?”, questiona Sonnenburg. “Acho que este estudo indica que pode ser bastante prejudicial.” As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Nature.
Transformações ao Longo da Evolução Humana
A composição do microbioma humano remonta a centenas de milhares de anos, adaptada a dietas de plantas e carne crua de nossos primeiros ancestrais. Mudanças significativas ocorreram com o advento do cozimento, a expansão humana para fora da África e, mais recentemente, com a domesticação de plantas e a adoção de dietas ricas em açúcares e grãos refinados nas últimas décadas. A medicina moderna, especialmente o uso de antibióticos, também desempenhou um papel crucial na alteração desse ecossistema interno, salvando vidas, mas também dizimando microrganismos benéficos.
Um Olhar para Sociedades Tradicionais
Para traçar a história do microbioma, Sonnenburg e sua equipe analisaram amostras de fezes de populações em diferentes estágios de industrialização. Os Hadza, um grupo de caçadores-coletores da Tanzânia, apresentaram uma diversidade bacteriana notavelmente maior em comparação com californianos, com cerca de 730 espécies em média, contra 270. Muitas dessas bactérias são raras ou ausentes em países industrializados.
A comparação com os Tsimane, um grupo indígena da Amazônia boliviana que mantém um estilo de vida semelhante, mas com uma história migratória distinta, foi fundamental. Os pesquisadores identificaram 848 espécies compartilhadas entre Hadza e Tsimane, que são raras ou ausentes em sociedades industrializadas. A análise de 636 espécies particularmente abundantes revelou padrões de mutação que indicam a presença dessas bactérias em caçadores-coletores dezenas de milhares de anos atrás.
Implicações para a Saúde Moderna
Essas descobertas sugerem que os caçadores-coletores compartilharam um ecossistema microbiano intestinal por um longo período, que moldou nossa biologia, possivelmente treinando o sistema imunológico e sintetizando compostos essenciais. A perda dessas bactérias ancestrais pode estar associada a inflamações e outras alterações prejudiciais à saúde. Michael Gurven, antropólogo e coautor do estudo, sugere que o microbioma ancestral pode explicar a proteção de populações como os Tsimane contra doenças cardíacas e crônicas.
No entanto, especialistas alertam para a cautela. Marie-Claire Arrieta, cientista do microbioma não envolvida na pesquisa, adverte que tentar replicar um microbioma de caçador-coletor em países industrializados pode apresentar riscos, dado o pouco conhecimento sobre os potenciais efeitos infecciosos desses microrganismos. A prioridade, segundo Arrieta, deve ser o estudo aprofundado das funções perdidas e a busca por maneiras de restaurá-las, em vez de uma tentativa de retorno aos microbiomas ancestrais. “A ideia de que deveríamos voltar aos microbiomas ancestrais não faz muito sentido”, afirma. “Mas, sem dúvida, é importante estudá-los para compreender algumas dessas funções microbianas que foram perdidas.”