O 'Sober Curious': Jovens e influenciadores debatem o consumo de álcool para diversão e buscam alternativas mais saudáveis
O ‘Sober Curious’: Jovens e influenciadores debatem o consumo de álcool para diversão e buscam alternativas mais saudáveis

O ‘Sober Curious’: Jovens e influenciadores debatem o consumo de álcool para diversão e buscam alternativas mais saudáveis

A ascensão do movimento ‘Sober Curious’ no Brasil Uma nova onda de questionamento sobre o hábito de beber para se divertir está tomando conta das redes sociais. Pessoas, muitas delas jovens e influenciadores digitais, têm compartilhado suas experiências ao participar de eventos e socializar sem a necessidade de um copo na mão. Essa tendência, conhecida […]

Resumo

A ascensão do movimento ‘Sober Curious’ no Brasil

Uma nova onda de questionamento sobre o hábito de beber para se divertir está tomando conta das redes sociais. Pessoas, muitas delas jovens e influenciadores digitais, têm compartilhado suas experiências ao participar de eventos e socializar sem a necessidade de um copo na mão. Essa tendência, conhecida como ‘curiosidade pela sobriedade’ (ou ‘sober curious’, em inglês), tem como consequência a redução ou a completa pausa no consumo de álcool, impulsionada pela busca por bem-estar e uma vida com menos ressaca e mais clareza.

Anna Gouveia, 38, criadora da página “Tem Gente Que Não Bebe” no Instagram, é uma das vozes que ecoam esse movimento. Ela relata que, por muitos anos, associou o álcool à diversão e à socialização, um padrão que se consolidou desde o ensino médio. A mudança começou a se desenhar em 2019, durante um intercâmbio em Barcelona, onde percebeu uma redução natural no consumo. Em 2023, decidiu se abster completamente até seu aniversário seguinte, um período que se transformou em um novo estilo de vida.

A experiência de Anna também a fez notar a pressão social que quem opta pela sobriedade enfrenta. “Quem está sóbrio é pressionado a aceitar um drinque”, comenta. Essa percepção a motivou a criar seu perfil, que hoje conta com 145 mil seguidores, com o objetivo de oferecer um espaço com informações e incentivo à abstenção, fugindo do moralismo e da abordagem exclusiva focada na dependência química. A iniciativa surgiu da carência de material em português que abordasse a sobriedade de forma mais ampla.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pesquisa Datafolha, e depoimentos de Anna Gouveia, Ruby Warrington e Zuriel Palma.

Queda no consumo e o conceito de ‘Sober Curious’

O movimento de abstenção ou redução do consumo de álcool, sem necessariamente estar ligado a um diagnóstico de dependência química, acompanha uma tendência global. Segundo a OMS, o consumo mundial de álcool diminuiu cerca de 5% entre 2010 e 2019, com uma queda ainda mais acentuada de 10% em 2020, impactado pela pandemia de Covid-19. No Brasil, dados de 2025 indicam que 51% da população afirmou não ingerir álcool, e 53% relataram ter reduzido o consumo no ano anterior.

Anna Gouveia conheceu o conceito de “curiosidade pela sobriedade” através da escritora britânica Ruby Warrington. Em seu livro “Movimento Sober Curious: Descubra a leveza de uma vida sem ressaca”, Ruby narra sua própria jornada de questionamento do consumo de álcool a partir de 2011. Ela relata como, após um fim de semana sem beber, percebeu uma melhora significativa em seu bem-estar, o que a impulsionou a pesquisar o tema e a focar em seu próprio desenvolvimento. Ruby enfatiza que a “curiosidade pela sobriedade” é guiada pelo foco no bem-estar pessoal.

Inspirado por Ruby, o empresário Zuriel Palma, 39, criou o perfil “Sóbrio Curioso” no Instagram em 2024. Sua decisão de parar de beber por 30 dias, motivada pelo treinamento para um campeonato de crossfit, resultou em uma melhora psicológica que o levou a tornar a mudança definitiva.

Benefícios neurológicos e dicas para uma vida sem álcool

Parar de beber ou diminuir o consumo de álcool traz impactos positivos significativos para o cérebro. Graças à neuroplasticidade, o órgão é capaz de restabelecer funções, estruturas e cognição prejudicadas pelo álcool. A mudança de hábito pode melhorar o sono, o humor, a memória de longo prazo e aumentar a velocidade de processamento, com benefícios que podem se manifestar em cerca de três semanas.

O álcool atua como um depressor do sistema nervoso central, inibindo a produção de neurônios, comprometendo a comunicação entre eles e prejudicando a tomada de decisões. A psiquiatra Ana Cecília Petta Roselli Marques explica que o álcool “bagunça” o cérebro, e os danos podem variar dependendo da frequência e tempo de consumo, fatores genéticos, composição corporal, sexo e idade de início do uso. Adolescentes, cujo cérebro ainda está em formação até por volta dos 30 anos, são particularmente vulneráveis aos efeitos negativos do álcool.

Para aqueles que desejam explorar alternativas ao álcool, o mercado de bebidas zero álcool tem crescido expressivamente. Em 2023, o setor de bebidas alternativas avançou 20%, e a produção de cerveja sem álcool no Brasil registrou um aumento de 536,9% entre 2023 e 2024. Essas opções oferecem o sabor de bebidas tradicionais sem os efeitos do álcool, auxiliando na transição e na quebra de tabus.

Zuriel Palma e Mari Gutterres, criadora do perfil “Movimento Zero”, abordam o tema em seu podcast “Sóbrios Cast”, oferecendo dicas para criar novos hábitos e socializar sem a necessidade de álcool. Anna Gouveia, por sua vez, descobriu prazer em programas introspectivos e aproveita o tempo livre que antes era consumido pela bebida ou pela ressaca.

É importante ressaltar que o movimento “Sober Curious” não se destina a pessoas que enfrentam a dependência química. Para quem suspeita ou sabe que tem transtorno por uso de álcool, o Ministério da Saúde considera abusiva a ingestão de quatro ou mais doses para mulheres e cinco ou mais para homens em uma mesma ocasião. Nesses casos, o ideal é buscar auxílio profissional, como os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), que oferecem atendimento gratuito pelo SUS.

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