O aumento de viagens e a aglomeração de pessoas em eventos religiosos de massa na América do Sul acendem um alerta para a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) quanto ao risco elevado de disseminação do sarampo na região. A entidade convoca os países a reforçarem as campanhas de vacinação, a vigilância epidemiológica e as ações de resposta rápida para conter possíveis surtos.
A recomendação da Opas, detalhada em sua nova avaliação regional de risco, ocorre em um cenário preocupante marcado por surtos ativos de sarampo, lacunas persistentes na cobertura vacinal e a detecção da doença em novas áreas geográficas. Jarbas Barbosa, diretor da Opas, enfatizou a alta contagiosidade do sarampo e alertou para as consequências da baixa adesão à vacinação nas Américas, instando as famílias a garantirem a imunização de seus filhos com a vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba).
O sarampo é uma doença viral de transmissão aérea cujos sintomas, como febre alta, tosse, coriza, conjuntivite e o característico exantema (manchas avermelhadas na pele), geralmente aparecem entre 7 a 14 dias após a exposição. A transmissão ocorre facilmente de pessoa para pessoa através de gotículas expelidas pela tosse, espirro, fala ou respiração.
As diretrizes da Opas aos governos sul-americanos incluem o fortalecimento dos sistemas de vigilância para detectar e responder prontamente a casos suspeitos, especialmente em períodos de intensificação de viagens e aglomerações, que criam oportunidades propícias para a propagação do vírus. Entre janeiro e outubro de 2023, a região registrou 55.792 casos confirmados de sarampo e 77 mortes em 17 países, um aumento expressivo em relação ao mesmo período do ano anterior.
Ameaça amplificada por eventos de massa
A alta capacidade de contágio do sarampo, aliada à baixa imunidade de certas populações e à concentração de pessoas, torna eventos de massa um vetor significativo para sua disseminação. O período de incubação da doença, que permite a transmissão antes mesmo do surgimento da erupção cutânea, facilita que viajantes infectados exponham outras pessoas sem o saber. A movimentação de pessoas entre países e comunidades durante esses eventos potencializa a importação e a propagação viral.
Daniel Salas, gerente executivo do Programa Especial de Imunização Integral da Opas, aconselha que todos os participantes de eventos de massa, mesmo aqueles que viajam dentro de seus próprios países, verifiquem seu status vacinal. Pessoas a partir de seis meses de idade que não possuam comprovante de vacinação devem receber uma dose da vacina contra o sarampo, idealmente duas semanas antes da participação no evento ou viagem.
Cobertura vacinal abaixo do ideal
A cobertura regional da vacina tríplice viral em 2023 atingiu 88% para a primeira dose e 85% para a segunda, percentuais inferiores aos 95% recomendados pela Opas para prevenir surtos. Essa defasagem na imunização deixa uma parcela considerável da população suscetível ao sarampo. Fatores como atrasos na vacinação acumulados durante a pandemia de Covid-19, hesitação vacinal, dificuldades operacionais e barreiras de acesso aos serviços de saúde, que afetam particularmente povos indígenas, migrantes e populações deslocadas, contribuem para as lacunas na cobertura vacinal. Estima-se que cerca de 1,6 milhão de crianças nas Américas não tenham recebido nenhuma dose da vacina contra o sarampo em 2023.
A persistência de surtos em curso e a detecção do sarampo em novas áreas geográficas reforçam a necessidade de vigilância contínua, especialmente diante do ressurgimento global da doença, que eleva a probabilidade de casos importados e de transmissão secundária em comunidades com baixa imunidade.
