Pastor palestino critica uso da Bíblia para justificar opressão de Israel
Pastor palestino critica uso da Bíblia para justificar opressão de Israel

Pastor palestino critica uso da Bíblia para justificar opressão de Israel

A interpretação de textos bíblicos por parte de setores evangélicos para apoiar as ações de Israel é criticada pelo pastor palestino Munther Isaac. Ele afirma que essa visão, conhecida como “sionismo cristão”, tem sido utilizada para justificar a opressão e o apagamento da população palestina. A presença de bandeiras de Israel em eventos evangélicos como […]

Resumo

A interpretação de textos bíblicos por parte de setores evangélicos para apoiar as ações de Israel é criticada pelo pastor palestino Munther Isaac. Ele afirma que essa visão, conhecida como “sionismo cristão”, tem sido utilizada para justificar a opressão e o apagamento da população palestina.

A presença de bandeiras de Israel em eventos evangélicos como a Marcha para Jesus no Brasil é um reflexo, segundo o pastor Munther Isaac, de como a Bíblia tem sido instrumentalizada para justificar políticas de Israel. Isaac, um pastor palestino residente em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, participou de uma série de eventos no Brasil para lançar seu livro “Cristo nos Escombros: A presença de Deus em Meio ao Sofrimento em Gaza”. Em suas falas, ele questiona a interpretação que transforma a ligação histórica dos judeus com a terra em uma ideologia política que implica a expulsão dos palestinos.

O religioso, que também dirige o Instituto Belém para a Paz e a Justiça, uma organização evangélica, utilizou sua visita ao Brasil para denunciar o que descreve como violência sistemática contra os palestinos. Ele ressalta que a população cristã palestina, estimada em cerca de 45 mil pessoas na Cisjordânia, Jerusalém e Gaza, enfrenta não apenas as restrições impostas a todos os palestinos, mas também discriminação e violência por motivos religiosos. Dados do Centro de Dados para a Liberdade Religiosa, um instituto israelense, apontam um aumento nos atos de assédio contra cristãos na região, incluindo cuspidas, ofensas verbais e vandalismo contra símbolos religiosos.

A crítica ao Sionismo Cristão

Isaac direciona sua crítica ao “sionismo cristão”, uma corrente influente em determinados círculos evangélicos que vê a existência e as ações militares de Israel como cumprimento de profecias bíblicas. Segundo ele, essa interpretação minimiza o sofrimento palestino e oferece respaldo para a ocupação de terras. “Hoje, um judeu de Nova York pode viajar à Palestina, expulsar palestinos, tomar suas terras e até mesmo suas casas. E alguns justificam isso como sendo o cumprimento de uma profecia ou o retorno dos judeus à sua terra. Muitos cristãos acreditam nisso”, declarou o pastor, referindo-se à expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.

No Brasil, essa visão encontra eco em setores conservadores, como exemplificado pela presença do pastor americano Larry Huch na Marcha para Jesus do ano passado, onde ele proferiu que “quem abençoa Israel é abençoado”. A aproximação com Israel também foi uma bandeira política de Jair Bolsonaro durante sua presidência. Isaac lamenta que o apoio incondicional a Israel por parte de alguns grupos cristãos contribua para a crise humanitária vivida pelos palestinos, muitas vezes partindo da premissa equivocada de que a terra estava vazia antes da criação do Estado de Israel.

Rejeição à Violência

O pastor enfatiza que a Bíblia rejeita a violência e defende um posicionamento mais contundente de líderes religiosos, incluindo o Papa, contra as ações militares israelenses. Ele condena os ataques do Hamas em outubro de 2023, mas ressalta que as ameaças à comunidade cristã palestina geralmente não provêm de grupos islâmicos extremistas. “Isso não significa que apoiamos o Hamas. Os cristãos palestinos não acreditam em um Estado religioso. Por isso, não apoiam o Hamas”, explicou.

A violência afeta todas as populações da região, com recentes ataques de atiradores palestinos a israelenses, como o ocorrido próximo ao assentamento de Neve Tzuf. Isaac conclui que a instrumentalização da fé para justificar a opressão ignora a complexidade do conflito e o sofrimento humano de todos os envolvidos, reiterando o chamado para que os cristãos se afastem de uma visão que legitima a exclusão e a violência.

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