A crise institucional que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novas e complexas dimensões com a análise de informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O material, apreendido em novembro do ano passado, aponta para uma extensa rede de contatos que abrange metade dos ministros da Corte, seus familiares e diversas autoridades de outros poderes, levantando suspeitas sobre a influência dessas relações em decisões judiciais.
As informações contidas no aparelho revelam um leque de interações que incluem mensagens, encontros, contratos de advocacia, participação em eventos de luxo bancados pelo Master, viagens e relações pessoais. O conteúdo do celular de Vorcaro tornou-se uma peça central na crise que atinge o STF, com o material periciado já em posse de múltiplos magistrados, indicando que novas revelações ainda podem surgir.
As investigações detalham, por exemplo, a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master. Uma das principais controvérsias gira em torno de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre a instituição financeira e o escritório Barci de Moraes, pertencente à família do ministro. Embora o escritório tenha confirmado a relação profissional, negou a prestação de serviços de defesa no STF. No entanto, metadados do contrato indicariam uma alteração realizada com um login atribuído a Alexandre de Moraes, o que o escritório esclarece ter sido uma análise de conflito de interesses.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Polícia Federal e reportagens jornalísticas.
Patrocínios e Eventos de Luxo
A relação de Vorcaro com membros do STF não se restringe a contratos. O Banco Master atuou como patrocinador de eventos jurídicos e empresariais de alto padrão, frequentados por integrantes da cúpula do Judiciário. Cidades como Nova York, Paris, Londres, Rio de Janeiro e Lisboa foram palcos desses eventos, que contaram com a participação de ministros como Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, além de ex-ministros como Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandowski. Relatos indicam ainda que o banco teria custeado despesas de eventos paralelos a fóruns organizados por institutos ligados a Gilmar Mendes, incluindo viagens e experiências exclusivas.
Conexões Patrimoniais e Suspeitas
O ministro Dias Toffoli teve sua relação com o Banco Master exposta devido a uma transação patrimonial que o levou a declarar suspeição em julgamentos relacionados à instituição. A família de Toffoli vendeu um resort de luxo no Paraná a um fundo de investimentos ligado ao Master e a Vorcaro. Após a revelação, Toffoli se declarou impedido de participar de casos envolvendo o banco, tendo inclusive deixado a relatoria de um processo sobre o tema.
Outro ministro sob escrutínio é André Mendonça, que confirmou ter recebido Vorcaro em março de 2025, antes de se tornar relator do caso Master. Mendonça justificou o encontro como de caráter institucional para tratar de créditos de precatórios. No entanto, a reunião ocorreu na véspera de Mendonça pedir vista em um processo do setor funerário, onde um fundo ligado a Vorcaro possuía negócios, gerando questionamentos sobre possível influência externa em sua decisão.
Pagamentos e Relações Familiares
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro também mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil a uma empresa ligada a Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques. Tanto Kevin quanto o ministro negaram irregularidades, com a defesa de Kevin afirmando que os valores recebidos foram por serviços jurídicos tributários e sem relação direta com o Banco Master ou Vorcaro. Apesar das negativas, o episódio resultou na declaração de impedimento de Nunes Marques em um julgamento sobre a investigação de Moraes.
Ainda no âmbito familiar, há menções a Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux. Mensagens indicam uma suposta relação próxima e contatos envolvendo o círculo do ministro. O escritório de Rodrigo Fux negou ter prestado serviços ou recebido valores de Vorcaro ou do Banco Master. Flávio Dino chegou a insinuar referências a Luiz Fux em mensagens do celular de Vorcaro, o que foi categoricamente negado pelo ministro.
Festas, Jatinhos e Experiências Exclusivas
Além de contratos e reuniões, a investigação aponta para despesas milionárias bancadas por Vorcaro a autoridades, incluindo viagens, festas e o fornecimento de aeronaves. Registros indicam que o Banco Master patrocinou eventos frequentados por autoridades e que despesas de viagens, assim como o uso de jatinhos, foram custeadas pelo grupo financeiro. Há mensagens em que Vorcaro afirma ter bancado voos de autoridades e políticos, cujos detalhes ainda estão sendo analisados.
O conteúdo recuperado do celular de Vorcaro pode ainda comprometer outras autoridades. A Polícia Federal enviou a íntegra do material para gabinetes de ministros como Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, e Alexandre de Moraes também teve acesso ao conteúdo. A discussão sobre o compartilhamento integral do material continua, com a possibilidade de novas mensagens alterarem o quadro das relações estabelecidas.
Investigadores alertam que a crise atual não pode ser explicada por uma única relação, dado o envolvimento de metade da Corte com Daniel Vorcaro. O foco agora é esclarecer se essas relações resultaram em benefícios indevidos ou influência em decisões judiciais. A disputa sobre a investigação contra Alexandre de Moraes chegou ao plenário do STF, com trocas de acusações entre Moraes e André Mendonça, evidenciando a complexidade e a politização do caso.
