O mercado de saúde premium no Brasil está passando por uma transformação significativa, diversificando seus serviços para além dos tradicionais check-ups anuais. A nova aposta inclui um foco crescente na saúde mental, exames preditivos e a integração de dados provenientes de dispositivos vestíveis como relógios e anéis inteligentes. Essa mudança reflete uma demanda do público de alta renda por acompanhamento contínuo, experiências de bem-estar completas e um cuidado mais personalizado e integrado.
Hospitais, laboratórios e clínicas de alto padrão agora oferecem programas que monitoram a saúde mental, a qualidade do sono e os hábitos alimentares, além de exames genéticos e de risco para doenças. Essa estratégia visa não apenas tratar, mas também prevenir, promovendo longevidade, performance física e equilíbrio emocional. O mercado de saúde de luxo no Brasil, que segundo a consultoria Bain & Company deve alcançar R$ 15 bilhões em 2025, com um crescimento acumulado de 15,4% desde 2022, busca fidelizar clientes através de uma jornada de saúde contínua e personalizada.
Consultores apontam que a personalização e a oferta de experiências completas de bem-estar são a resposta do setor ao avanço da inteligência artificial, que tende a baratear muitos procedimentos. A IA, aliada aos wearables, permite um monitoramento mais acessível e contínuo, inclusive após a alta hospitalar, um serviço que se espera em expansão. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela imprensa especializada e consultorias de mercado.
Check-up Mental e Cognitivo Ganham Espaço
Instituições como o Hospital Israelita Albert Einstein já oferecem um check-up de saúde mental voltado para executivos. Em cerca de cinco horas, os pacientes passam por avaliações com psiquiatras, neuropsicólogos, testes cognitivos com realidade virtual e análise de hábitos alimentares, totalizando R$ 6.800. O objetivo é dar à saúde mental a mesma atenção que à física, com a emissão de um laudo integrado e encaminhamento para tratamento, se necessário. Para executivos acima de 60 anos, o exame pode identificar comprometimento cognitivo leve.
O Hospital Alemão Oswaldo Cruz também investe na cognição com um centro de memória que oferece testes e acompanhamento multidisciplinar. O check-up, com custo aproximado de R$ 4.000, inclui avaliação de estresse e plano de exercícios, sendo contratado frequentemente por empresas. O hospital também mira em testes de risco genético, como para mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, associados ao câncer de mama, como a próxima fronteira de seus serviços preditivos.
Longevidade e Prevenção com Tecnologia
O Grupo Fleury inaugurou o Lifecare, um centro de longevidade focado em adultos a partir de 35 anos, com um investimento de R$ 35 milhões. A consulta inicial custa R$ 1.500 e o serviço inclui um “mapa de saúde” detalhado, acompanhado por aplicativo, com recomendações de nutrição, ioga e mindfulness. O centro também oferece o relógio epigenético, que mede a idade biológica, e o exame Galleri, capaz de detectar mais de 50 tipos de câncer em estágio inicial.
O monitoramento remoto através de wearables, como relógios e anéis inteligentes, está se tornando um diferencial, especialmente em unidades de saúde que se expandem para o interior. A Le Health, por exemplo, utiliza esses dispositivos para acompanhar dados de sono, frequência cardíaca e desempenho dos pacientes a distância, permitindo ajustes em tempo real no tratamento e maior engajamento do paciente em sua própria saúde. Um software desenvolvido pela clínica ajusta os alertas de acordo com as métricas individuais, fugindo de padrões genéricos.
Cautela com a Tecnologia e a Fragmentação Médica
Apesar do avanço tecnológico, alguns especialistas expressam cautela. José Marcelo de Oliveira, CEO do Hospital Oswaldo Cruz, ressalta que relógios e anéis inteligentes ainda não são certificados como dispositivos médicos, podendo gerar ruído excessivo e estresse, tanto para pacientes quanto para médicos. Ele defende que esses vestíveis são mais úteis em transições clínicas específicas, como a saída da UTI ou a alta hospitalar. Oliveira também alerta para a necessidade de contextualizar os testes preditivos, como os de câncer, com o quadro clínico completo do paciente.
Médicas da Le Health também criticam a obsessão por métricas de wearables, lembrando que os valores de referência não se aplicam a todos. A integração do cuidado é vista como um contraponto à fragmentação da medicina em especialidades cada vez mais restritas, buscando uma visão holística do paciente. O psiquiatra Luiz Zoldan, do Einstein, compartilha essa visão, indicando que o hospital ainda não integrou aplicativos ou monitoramento contínuo por vestíveis em seu check-up mental devido à necessidade de validação científica robusta desses aparelhos antes de seu uso clínico generalizado.
