Quem venceria: Você ou um animal? A ciência desvenda as velocidades e os limites da corrida
Quem venceria: Você ou um animal? A ciência desvenda as velocidades e os limites da corrida

Quem venceria: Você ou um animal? A ciência desvenda as velocidades e os limites da corrida

A eterna curiosidade sobre quem corre mais rápido, humanos ou animais, ganha contornos científicos com estudos que mapeiam as velocidades máximas e de resistência de diversas espécies. A resposta, contudo, não é tão simples quanto parece e depende da distância e do tipo de corrida. A cena é familiar: um animal selvagem cruza o caminho, […]

Resumo

A eterna curiosidade sobre quem corre mais rápido, humanos ou animais, ganha contornos científicos com estudos que mapeiam as velocidades máximas e de resistência de diversas espécies. A resposta, contudo, não é tão simples quanto parece e depende da distância e do tipo de corrida.

A cena é familiar: um animal selvagem cruza o caminho, e a primeira pergunta que surge é se, em uma emergência, seria possível superá-lo em uma corrida. A resposta, na maioria das vezes, é um retumbante não. Ursos-negros, por exemplo, podem atingir até 48 km/h, uma velocidade consideravelmente superior à de um ser humano em sprint. Essa inquietação levou cientistas a compilar dados sobre a performance atlética de centenas de criaturas, desde pequenos roedores até grandes mamíferos, buscando entender as nuances da velocidade animal e compará-la à nossa.

Essas pesquisas, que evoluíram de métodos rudimentares como perseguir antílopes de carro a tecnologias modernas como GPS, revelam surpresas. Ao contrário do senso comum, a massa corporal não é o único determinante da velocidade. A bióloga Myriam Hirt, após analisar dados de cerca de 350 animais terrestres, concluiu que animais maiores podem ser prejudicados pela necessidade de mais tempo para atingir sua velocidade máxima, um fenômeno comparável à maior pista de decolagem necessária para aviões grandes.

Para o ser humano médio, até mesmo animais menores como esquilos ou texugos representariam um desafio intransponível em uma corrida curta, atingindo cerca de 30 km/h com poucas passadas. Contudo, a lenta aceleração de animais de grande porte, como o elefante-africano (que atinge 35 km/h, mas leva cerca de 7,5 segundos para chegar lá), pode oferecer uma janela de oportunidade em distâncias muito curtas para corredores humanos bem treinados. Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, com um pico de velocidade de 44 km/h, venceria um elefante, mas seria superado por muitos outros, como o guepardo (93 km/h) e o avestruz (82,8 km/h).

Corridas de velocidade vs. resistência

A diferença entre corridas de velocidade e de resistência é crucial. Enquanto as primeiras dependem de fibras musculares de contração rápida, explosivas mas fatigáveis, as segundas se baseiam em fibras de contração lenta, que sustentam o esforço por mais tempo. Os seres humanos, com sua capacidade de suar e biomecânica adaptada, são naturalmente mais propensos a corridas de resistência.

Isso se reflete em comparações como a do ex-atleta olímpico Andy Baddeley, que corre 100 metros em cerca de 11,7 segundos. Embora mais lento que muitos animais em sprint, ele superaria qualquer corredor de elite em sua especialidade de 1.500 metros, graças à sua capacidade de manter a velocidade. Da mesma forma, guepardos, apesar de sua velocidade estonteante, mantêm o pico por apenas dois segundos, com distâncias de caça típicas de menos de 200 metros. Já antílopes-americanos, presas, são capazes de manter uma velocidade média de 65 km/h por distâncias muito maiores, necessitando de tal resistência para escapar de predadores.

Quem leva a maratona?

Quando a distância aumenta, o cenário muda drasticamente. Embora a velocidade de percurso de muitos animais, como ursos-negros (2,6 km/h) e tigres (3,5 km/h), seja inferior à de corredores humanos em maratonas, a resistência real pode ser surpreendente. Cães da raça husky siberiano, por exemplo, poderiam superar o recorde mundial humano em maratonas, e cavalos treinados para corridas de longa distância frequentemente vencem humanos em provas de montanha.

Em distâncias extremas, como ultramaratonas, a vantagem humana reside mais na capacidade mental de suportar o desconforto e a dor do que na pura fisiologia. No entanto, mesmo nesse domínio, cães como os huskies, que completam distâncias de 1.600 km em sete dias e meio, demonstram uma resistência extraordinária que desafia a comparação direta. A capacidade de persistir e gerenciar a energia ao longo de dias ou semanas é um testemunho da adaptação animal, muitas vezes impulsionada pela necessidade de sobrevivência.

As velocidades mencionadas nesta reportagem foram principalmente extraídas dos estudos científicos “A general scaling law reveals why the largest animals are not the fastest” (Hirt et al, 2017) e “The body size and temperature dependence of organismal locomotion” (Cloyed e Dell, 2020).

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