A automedicação com fármacos para obesidade, muitas vezes adquiridos pela internet ou de procedência duvidosa, configurou-se como um problema de saúde pública crescente. A prática abrange desde adultos que buscam emagrecer para eventos pontuais até adolescentes e crianças com obesidade, todos unidos pela ausência de acompanhamento médico profissional. O cenário ignora etapas cruciais como diagnóstico, prescrição, garantia de procedência e acompanhamento contínuo, elementos indispensáveis para qualquer tratamento seguro.
Os medicamentos em questão, como os análogos de GLP-1 (semaglutida e liraglutida) e a tirzepatida, mimetizam hormônios intestinais que regulam a produção de insulina e a sensação de saciedade. Ao reduzir o apetite e o consumo alimentar, eles representam tratamentos legítimos para a obesidade, uma doença crônica com bases biológicas, e não uma falha de caráter ou vaidade. O estigma associado à obesidade, no entanto, empurra indivíduos para soluções clandestinas ou pela internet, em vez de buscarem orientação profissional.
Estudos como o STEP e o SURMOUNT demonstram a eficácia desses medicamentos, com perdas de peso médias significativas em adultos. Contudo, a natureza terapêutica desses fármacos exige respeito e não banalização. Seu uso, quando legítimo, é estritamente regulado por indicações, dosagens específicas, contraindicações e potenciais efeitos adversos, aspectos que se perdem completamente na automedicação e na aquisição sem controle.
Riscos da procedência e automedicação
A aquisição de medicamentos sem prescrição médica expõe o usuário a riscos consideráveis. A falta de procedência, especialmente em produtos importados sem registro na Anvisa ou adquiridos por meios não regulamentados, levanta dúvidas sobre a real composição, dosagem e pureza do princípio ativo. Medicamentos transportados e armazenados sem controle adequado podem ter sua eficácia comprometida ou apresentar concentrações perigosas.
A automedicação omite o diagnóstico, passo fundamental para determinar a real indicação do tratamento. Profissionais de saúde avaliam a necessidade, rastreiam contraindicações, ajustam a dose gradualmente e monitoram a resposta do paciente. Sem esse acompanhamento, efeitos colaterais gastrointestinais comuns, como náuseas e vômitos, não são manejados adequadamente, e condições médicas que contraindicam o uso podem passar despercebidas. Efeitos adversos graves, como pancreatites, infecções e hipoglicemia severa, também podem surgir devido à falta de controle na purificação da substância ou a concentrações alteradas.
Indicação clínica e grupos de risco
A indicação formal desses medicamentos em adultos geralmente se restringe a casos de obesidade associada a complicações de saúde relacionadas ao peso, sempre em conjunto com mudanças no estilo de vida. Não são indicados para fins estéticos ou perda de peso trivial. Recentemente, pareceres como o publicado na The Lancet Diabetes & Endocrinology em 2025 propõem a classificação da obesidade em clínica e pré-clínica. Na obesidade clínica, o excesso de gordura já causa disfunção orgânica, necessitando de tratamento imediato. Na pré-clínica, há risco aumentado, e o tratamento pode ser indicado sob acompanhamento médico rigoroso, dependendo do risco imposto pelo excesso de peso.
Para crianças e adolescentes, o uso de medicamentos contra obesidade é ainda mais restrito. A liraglutida e a semaglutida possuem aprovação para uso a partir dos 12 anos em casos específicos, baseados em estudos clínicos e sob supervisão especializada. Abaixo dessa idade, as evidências são iniciais e nenhum medicamento foi aprovado. Em qualquer cenário, o tratamento eficaz e seguro para a obesidade, seja em jovens ou adultos, requer diagnóstico, prescrição, produto regulamentado e acompanhamento médico contínuo. A ausência de qualquer um desses pilares transforma um tratamento potencialmente benéfico em um risco desnecessário.
A mensagem central é clara: esses medicamentos não são soluções estéticas ou atalhos para emagrecimento rápido, mas sim ferramentas terapêuticas para uma doença crônica. O debate público deve focar em garantir o acesso seguro e adequado para quem realmente necessita, em vez de permitir que a falta de orientação empurre as pessoas para o mercado clandestino. O tratamento adequado da obesidade, com acompanhamento médico, é essencial para a saúde a longo prazo.
