Rumores sobre possível surto de peste na região de Irkutsk, na Sibéria, ganham força e levam o Kremlin a pedir calma. Autoridades admitem pneumonia de origem desconhecida em funcionária de instituto de pesquisa, mas negam risco de epidemia e vazamento de patógenos.
A Rússia enfrenta uma onda de especulações e preocupações internacionais após relatos de uma possível morte por peste na região de Irkutsk, na Sibéria. Rumores sobre a morte de uma jovem funcionária de laboratório e o temor de uma epidemia levaram à colocação de centenas de pessoas em quarentena, segundo informações preliminares. No entanto, as autoridades russas tentam conter o pânico, afirmando que a situação está sob controle e que não há evidências de uma ameaça à saúde pública.
As informações concretas sobre o caso são escassas e relatos contraditórios sobre a identidade da funcionária, sua idade e a causa exata de sua morte circulam há dias. O órgão russo de defesa do consumidor, responsável pelo controle de doenças, limitou-se a divulgar que a funcionária de um instituto de combate à peste na região de Irkutsk recebeu diagnóstico de pneumonia de origem desconhecida. Apesar da versão oficial, a desconfiança em relação às autoridades russas, que em passado recente ocultaram emergências sanitárias, como o surto de Aids nos anos 1980, alimenta as especulações, que ganharam destaque na mídia internacional.
O Kremlin pediu nesta segunda-feira (5) que a população ignore as especulações, em uma tentativa de acalmar os ânimos. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por veículos estatais de notícias russos e relatos da imprensa internacional.
Versão oficial e investigações em andamento
O órgão de defesa do consumidor russo, em um comunicado divulgado por veículos estatais, informou que nenhuma alteração de saúde associada a patologias infecciosas foi identificada entre as pessoas que tiveram contato com a funcionária. Além disso, assegurou que nenhum microrganismo relacionado à atividade profissional da paciente foi detectado nas amostras coletadas. Uma comissão inspecionou o instituto de combate à peste em Irkutsk para verificar o cumprimento dos requisitos de segurança biológica, concluindo que nenhuma situação de emergência envolvendo microrganismos patogênicos foi identificada.
O instituto de Irkutsk é um centro de pesquisa para diversas doenças infecciosas, incluindo a peste, causada por uma bactéria. Embora casos de peste sejam registrados anualmente em todo o mundo, principalmente na África, a doença é facilmente tratável com antibióticos em seus estágios iniciais. As autoridades afirmaram que a situação sanitária e epidemiológica na região de Irkutsk permanece estável.
Declarações contraditórias e especulações
A polêmica começou na sexta-feira (2), quando o governador da região de Irkutsk anunciou uma reunião extraordinária com a principal autoridade sanitária da Rússia para discutir um “caso suspeito de uma infecção particularmente perigosa em uma moradora”. O governador informou que todos os contatos identificados da moradora foram colocados sob observação médica. No mesmo dia, o prefeito de Shelekhov, cidade próxima a Irkutsk, confirmou o fechamento de uma ala de internação hospitalar para quarentena e a suspensão das atividades do laboratório local, pedindo que os moradores não espalhassem rumores.
O governador da vizinha região da Buriácia, Aleksei Tsydenov, foi o primeiro a mencionar oficialmente a possibilidade de peste, afirmando que a mulher que morreu na região de Irkutsk não havia visitado a Buriácia. Sua publicação, inicialmente mais incisiva, foi posteriormente atualizada para “possivelmente morreu de peste”. Autoridades de Baikalsk, cidade a cerca de 80 quilômetros de Irkutsk, também citaram “informações não oficiais” sobre um caso de peste, em um comunicado que desaconselhava viagens a Shelekhov, publicação que foi posteriormente apagada. Relatos semelhantes foram apagados de veículos de notícias federais.
A imprensa local, contudo, pintou um quadro mais alarmante. O veículo regional Lyudi Baikala noticiou o fechamento de outras clínicas e uma maternidade em Irkutsk. Um jornalista local, Pavel Stepanov, publicou em seu canal no Telegram que uma jovem assistente de laboratório teria quebrado um frasco de teste e morrido, informação que não pôde ser verificada independentemente. Stepanov, em publicações posteriores, questionou o apagamento de reportagens e declarações sobre o caso, sugerindo a possibilidade de sabotagem.
Medo de vazamento e comparações com a Covid-19
Autoridades dos Estados Unidos e da União Europeia afirmaram estar cientes dos relatos e monitorando a situação em Irkutsk. A possibilidade de um vazamento de laboratório e o temor de uma doença altamente contagiosa levaram a comparações com a Covid-19. No entanto, especialistas ressaltam que, mesmo que a peste fosse confirmada, o risco de uma epidemia seria limitado. Casos humanos de peste ocorrem anualmente e são tratáveis com antibióticos, quando detectados precocemente. O professor Ian Jones, especialista em vírus da Universidade de Reading, na Inglaterra, considerou o caso em Irkutsk como um “raro acidente de laboratório” e improvável que se alastre significativamente.
