A morte de Adriele da Silva Pinto, 31, durante uma cirurgia plástica em Ilhéus, no sul da Bahia, no último dia 25 de agosto, reacendeu um histórico de queixas contra o cirurgião plástico Rossini Tebaldi Ruback, que atua na região. A paciente realizava quatro procedimentos estéticos quando veio a óbito. O caso está sob investigação da Polícia Civil e do Ministério Público da Bahia (MP-BA), que apura também denúncias de outras pacientes.
Adriele entrou no Hospital Vida, em Ilhéus, no início da manhã para uma mastopexia com prótese de silicone, lipoescultura, remodelamento costal e jato de plasma. Por volta da meia-noite, sua tia foi informada sobre o falecimento da jovem. O caso mais recente se soma a outros relatos que apontam para supostos erros médicos, negligência e falta de cuidado pós-operatório envolvendo o mesmo profissional.
Quatro anos antes do óbito de Adriele, Petrina Fonseca, 43, de Itabela, passou por uma lipoaspiração com Ruback. Sete dias após o procedimento, um ponto da sutura se rompeu. Segundo Petrina, o cirurgião minimizou o problema, afirmando ser normal e prescrevendo medicamentos. Meses depois, a paciente apresentava um grave problema de saúde com um buraco sem pele entre a barriga e a virilha. “Achei que fosse morrer”, relatou.
Em 2022, Mirela (nome fictício), também paciente de Ruback, faleceu após uma cirurgia de abdominoplastia, lipoaspiração e lipoenxertia de glúteo. A certidão de óbito listou como causas insuficiência respiratória aguda, embolia pulmonar, trombose venosa profunda e cirurgia plástica. O caso tramita sob segredo de justiça, e a reportagem teve acesso ao inquérito policial, que foi encaminhado ao Ministério Público.
As informações foram reunidas a partir de reportagens e documentos obtidos pela imprensa.
Histórico de Denúncias e Ações Judiciais
A morte de Adriele intensificou a atenção sobre o histórico do médico. Em 2023, um grupo de pelo menos 30 mulheres se uniu para denunciar casos que consideram erro médico, negligência e falhas no acompanhamento pós-operatório. As pacientes relatam experiências como suturas sem anestesia, cirurgias realizadas sem estrutura adequada, dores intensas, necrose, abertura de pontos e deformações. Segundo elas, Ruback frequentemente atribuía as complicações à reação individual dos corpos ao procedimento, minimizando a responsabilidade profissional.
Atualmente, há 29 ações judiciais em andamento no Tribunal de Justiça da Bahia que buscam responsabilizar Ruback por danos morais e estéticos. Em 2023, antes da repercussão midiática dos casos, eram dez processos. O advogado Gustavo Azevêdo representa 12 mulheres que alegam ter sido vítimas do cirurgião. Ele destaca que, embora um caso tenha resultado em decisão favorável ao médico e outros ainda aguardem audiência, o caso de Petrina obteve uma sentença desfavorável ao profissional.
Petrina Fonseca expressou sua frustração com a demora na tomada de providências, afirmando que a morte de Adriele era o que ela temia que acontecesse. “Era isso que não podia ter acontecido. Esperar chegar uma morte para ver se eles tomam alguma providência”, disse ao ver a notícia na televisão.
Investigações em Andamento e Posicionamento da Defesa
O MP-BA acompanha as investigações policiais sobre o caso de Adriele e analisa o histórico de Ruback para possíveis medidas. A Secretaria de Saúde da Bahia agiu de forma cautelar, interditando o Hospital Vida, onde ocorreu o óbito, por não possuir alvará sanitário para o centro cirúrgico.
A assessoria jurídica do médico Rossini Tebaldi Ruback emitiu nota afirmando que a associação entre os casos é incorreta, classificando os óbitos como fatos “absolutamente distintos, com circunstâncias clínicas, temporais e fáticas próprias”. A defesa sustenta que o cirurgião possui mais de 3.000 procedimentos realizados com um expressivo número de pacientes satisfeitas e que a maioria das ações judiciais já teve decisões favoráveis. Quanto aos processos com sentenças desfavoráveis, a defesa informa que está recorrendo.
A defesa atribui a morte de Adriele a uma possível hipertermia maligna, uma reação rara e grave a certos anestésicos, e não confirma se o hospital possuía o medicamento dantroleno, necessário para reverter a condição, conforme exigência do Conselho Federal de Medicina (CFM).
O Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) informou que não há processos ético-profissionais em tramitação contra o médico. Em 2023, sete representações foram investigadas no conselho, mas todas foram indeferidas ou arquivadas. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) aguarda decisões judiciais ou do conselho regional para instaurar processos internos, mas avalia mudanças em seu estatuto para analisar casos individualmente.
O caso de Mirela, falecida em 2022, detalha que ela foi internada em um hospital de Itabuna para realizar procedimentos estéticos. Após a alta, apresentou fortes dores de cabeça e falta de ar. Segundo a família, Ruback considerou os sintomas normais. Dias depois, Mirela desmaiou e faleceu. O inquérito policial foi encaminhado ao Ministério Público, que aguarda informações complementares de instituições de saúde para decidir sobre a denúncia.
