Homens gays afeminados relatam rejeição em aplicativos de namoro: 'Preciso fingir masculinidade'
Homens gays afeminados relatam rejeição em aplicativos de namoro: ‘Preciso fingir masculinidade’

Homens gays afeminados relatam rejeição em aplicativos de namoro: ‘Preciso fingir masculinidade’

A voz que leva ao bloqueio: a realidade de homens gays afeminados em apps de namoro Matheus Daipre, 28 anos, conta que em uma ocasião um usuário do Grindr pediu para que ele enviasse um áudio. Após ouvir sua voz, foi bloqueado. Essa experiência, que ele descreve como recorrente, ilustra a dificuldade enfrentada por homens […]

Resumo

A voz que leva ao bloqueio: a realidade de homens gays afeminados em apps de namoro

Matheus Daipre, 28 anos, conta que em uma ocasião um usuário do Grindr pediu para que ele enviasse um áudio. Após ouvir sua voz, foi bloqueado. Essa experiência, que ele descreve como recorrente, ilustra a dificuldade enfrentada por homens gays que se identificam como afeminados em aplicativos de relacionamento. A forma de falar, gestos e maneirismos, frequentemente associados ao feminino, tornam-se gatilhos para a rejeição em um ambiente onde a masculinidade hegemônica parece ser o critério principal de atração.

Antes mesmo de se assumir gay aos 19 anos, Matheus relata ter tentado reprimir suas características consideradas femininas, como gestos e a forma de dançar. Mesmo após a aceitação familiar, a necessidade de adequação persistiu no âmbito afetivo. “Já tentei fingir uma masculinidade para ver se a pessoa se atrai um pouco mais por mim”, confessa, evidenciando a pressão para se encaixar em um padrão socialmente valorizado.

As informações foram reunidas a partir de relatos de usuários e estudos acadêmicos sobre o tema.

A internalização da masculinidade tóxica

A valorização da masculinidade nas relações entre homens gays é um tema estudado. Em sua dissertação de mestrado, o linguista João Carvalho de Souza Junior analisou sua própria experiência no Grindr. Ele descreve como, mesmo insatisfeito, criava um perfil que considerava mais atraente, utilizando fotos sem camisa e com o rosto cortado. Souza Junior argumenta que os usuários chegam às plataformas de namoro carregados de ideais sociais sobre o que é desejável, ou seja, um homem percebido como másculo pela sociedade. Essa dinâmica leva até mesmo aqueles que buscam romper com esses padrões a cederem a eles em prol da aceitação.

Para o psiquiatra Adilon Harley Machado, especialista em psicologia analítica e corporal, essa lógica de aprendizado da masculinidade começa na infância. Meninos aprendem a ser masculinos pela negação do que é associado ao feminino, desde os brinquedos até a expressão da sensibilidade e a forma de se portar. Machado ressalta que essa construção não é necessariamente sobre ser homem, mas sim uma resistência e contraposição ao que se espera de uma mulher. Essa internalização se estende aos desejos de homens gays, que, segundo ele, se formam a partir do contato e da convivência. “À medida que chega só um modelo de corpo, de aparência e de estrutura de pensamento, se constrói um eurocentrismo dos desejos e dos afetos”, afirma.

O que é valorizado e o que é rejeitado online

Na visão de Souza Junior, aspectos como masculinidade, saúde, vida atlética, riqueza, branquitude, tamanho do pênis, posição social e certas profissões ganham mais destaque no ambiente online. Ele aponta a influência das redes sociais, da publicidade e da pornografia na reprodução de padrões de gênero e dominação masculina. Um homem gay de 61 anos, que preferiu não se identificar, descreve seu perfil no Grindr como “macho”, “discreto” e “não assumido”, buscando homens masculinos, em boa forma e fora do círculo LGBTQIA+. Ele afirma que o homem não precisa ser um “cortador de lenha”, mas sim “normal”, sem traços, gestos ou atitudes consideradas femininas, como fala afetada, uso de artigos no feminino, maquiagem, sobrancelhas feitas, corpo depilado e certos gestos com as mãos.

Ele defende que se trata de uma preferência, comparando-a a quem gosta de gordos, peludos, negros, brancos, magros ou coroa. Contudo, ele lamenta que “hoje a dificuldade é que tudo vira uma pauta, o fato de uma pessoa ter uma preferência sexual vira discriminação, racismo ou intolerância”. Ele também cita amigos que se consideram mais masculinos e que preferem homens mais femininos.

Misoginia e a desvalorização do feminino

O homem gay afeminado ocupa uma posição singular na relação entre o masculino e o feminino, pois torna visível aquilo que a masculinidade hegemônica busca esconder, segundo o psiquiatra Adilon Harley Machado. Para a escritora e pesquisadora de gênero e sexualidade Letícia Lanz, a desvalorização de traços ligados ao feminino está intrinsecamente ligada à posição socialmente atribuída às mulheres. “Na origem de toda essa coisa, você vai encontrar misoginia”, afirma.

Lanz pondera que nem toda preferência por homens masculinos pode ser classificada como discriminatória, especialmente se o sexo for visto como uma atividade lúdica onde as escolhas são livres. No entanto, ela expressa receio de que a realidade seja diferente. A pesquisadora também contesta a ideia de que a simples convivência com pessoas que sofrem discriminação seja suficiente para erradicar o preconceito.

O impacto psicológico da rejeição e a busca pela autenticidade

A dissertação de Souza Junior questiona por que a rejeição a homens afeminados é explicitamente declarada em muitos perfis, enquanto outros desinteresses não recebem a mesma ênfase. Machado observa que nos aplicativos essas rejeições podem se manifestar de forma mais clara, com declarações em perfis que talvez não fossem ditas em conversas presenciais.

A psicóloga Noemi Alves do Carmo Machado, que atende pessoas LGBTQIA+, alerta que tentar modificar características próprias para ser aceito pode prejudicar a construção de uma identidade positiva. “Se encaixar num grupo normalmente dói muito. E se encaixar não é pertencer. É deixar muita coisa que constitui o meu eu lá fora”, pontua. Para ela, a verdadeira inclusão em um grupo permite que a pessoa se apresente por inteiro, sem fragmentações. A experiência contínua de rejeição também pode levar a um estado de hipervigilância, onde a pessoa, mesmo em relacionamentos saudáveis, vive com medo de ser desaprovada, buscando incessantemente sinais de aceitação. “Parece que cada interação que eu tenho é quase uma prova. Será que eu vou ser aprovado aqui? […] Traz uma exaustão muito grande para esse corpo, que está alerta o tempo todo”, descreve.

Matheus, apesar de notar que homens mais masculinos atraem mais atenção em ambientes como baladas, afirma que sua prioridade mudou. “Não me importo mais se estão me olhando. Eu me curto e gosto de estar bem para mim mesmo”, declara, buscando a autoaceitação como prioridade.

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