A popularidade crescente dos suplementos alimentares nos Estados Unidos contrasta com as dúvidas de especialistas sobre seus reais benefícios para a saúde da população em geral. Uma pesquisa recente indica que a vasta maioria dos adultos americanos recorre a vitaminas, minerais, proteínas ou outros compostos, mesmo que a ciência ainda não comprove, na maioria dos casos, vantagens significativas para o bem-estar.
Novos dados revelam que cerca de 8 em cada 10 adultos nos Estados Unidos consomem pelo menos um suplemento alimentar. Deste total, um terço utiliza produtos proteicos, como pós, barras e bebidas. Essa tendência, embora baseada em uma pesquisa de pequena escala conduzida pelo Pew Research Center, sugere uma adoção cada vez maior desses produtos, que já eram populares há tempos. Contudo, o cenário é de cautela por parte de especialistas médicos e científicos.
O Dr. Pieter Cohen, professor associado de medicina na Harvard Medical School, é categórico ao afirmar que “bem mais de 80%, 90% do consumo de suplementos não oferece nenhum benefício comprovado para a pessoa que os toma”. A pesquisa do Pew Research Center entrevistou 3.554 adultos americanos, e os resultados mostraram que 31% relataram o uso de suplementos proteicos, com maior incidência entre adultos com menos de 50 anos. As vitaminas e minerais lideraram a lista, sendo consumidos por 67% dos participantes. Outros suplementos comuns incluem ômega 3, óleo de peixe ou krill (25%) e extratos de plantas como ginseng ou ashwagandha (quase 20%).
Benefícios reais versus percepção popular
Embora existam situações específicas em que a suplementação é recomendada – como no tratamento de deficiências nutricionais ou na prevenção de malformações congênitas –, estas representam uma minoria, segundo o cardiologista Eric Topol, fundador do Scripps Research Translational Institute. Ele aponta que muitos usuários de suplementos de ômega 3, por exemplo, acreditam que estes melhoram a saúde cardíaca ou cerebral, mas a maioria dos ensaios clínicos não conseguiu confirmar tais benefícios. Da mesma forma, a necessidade de suplementos proteicos é frequentemente superestimada. “As pessoas têm essa paranoia de que não estão consumindo proteína suficiente”, observa Topol, possivelmente influenciadas por promessas de consumo excessivo em redes sociais. Na realidade, a dieta comum já costuma suprir a demanda proteica da maioria das pessoas.
Curiosamente, a pesquisa do Pew identificou que mais mulheres do que homens consomem suplementos proteicos, uma inversão em relação ao que era observado até recentemente, quando homens dominavam esse nicho. Stuart Phillips, professor de cinesiologia na McMaster University, sugere que isso pode refletir uma maior atenção às necessidades proteicas nas redes sociais, o que tem um fundo de verdade, já que mulheres tendem a consumir menos proteína do que o recomendado. O aumento do uso entre mulheres também pode estar ligado à popularidade de medicamentos para perda de peso que atuam como agonistas de GLP-1, com a crença de que a proteína adicional pode mitigar a perda de massa muscular associada a esses tratamentos.
O aumento contínuo e os riscos envolvidos
Estimativas anteriores sobre o uso de suplementos já variavam, mas pesquisas indicam um aumento consistente nas últimas décadas. Um estudo que analisou dados de mais de 63 mil americanos entre 1999 e 2023 mostrou um crescimento no uso de suplementos de 51% para 60%. Alegações sem comprovação em redes sociais e a busca por uma “pílula mágica” para longevidade podem impulsionar essa tendência, segundo especialistas. É notável que o uso de suplementos é maior entre pessoas com 65 anos ou mais, embora as evidências que sustentam a recomendação de multivitamínicos, cálcio ou vitamina D para idosos sejam controversas.
A nutricionista Gretchen Zimmermann, porta-voz da Academy of Nutrition and Dietetics, lembra que as empresas de suplementos não precisam comprovar segurança ou eficácia antes de comercializar seus produtos. Isso abre margem para riscos que incluem toxicidade por doses elevadas de vitaminas e minerais, danos hepáticos por extratos de plantas e interações perigosas com medicamentos. “Sempre converse com um médico antes de tomar um suplemento”, aconselha Zimmermann. Com a indústria global de suplementos avaliada em cerca de US$ 228 bilhões, muitos especialistas, como Eric Topol, consideram que “a maioria deles é um desperdício de dinheiro”, que apenas “enriquecem sua urina” sem oferecer benefícios concretos.
