A união de conveniência entre católicos e evangélicos conservadores no cenário político brasileiro, embora forte em temas como oposição ao aborto e à pauta LGBTQIA+, pode estar fadada a enfrentar turbulências futuras. A afinidade em “pautas de costumes” tem sido o motor dessa aliança, mas as raízes históricas e teológicas distintas de ambas as vertentes cristãs podem representar uma bomba-relógio para essa coalizão.
A recente polarização política no Brasil pode ter obscurecido as nuances da relação entre católicos e evangélicos conservadores. O que se observa é um “ecumenismo de conveniência”, como aponta a análise de Rodrigo Toniol, onde a convergência em temas morais se sobrepõe a divergências históricas e teológicas. A oposição ao aborto, a defesa de valores familiares tradicionais e a resistência à chamada “ideologia de gênero” e a pessoas trans unem ambos os grupos em uma frente política coesa, que demonstrou força em recentes pleitos eleitorais.
No entanto, essa aparente unidade esconde um passado de profundas discordâncias. O próprio protestantismo nasceu de uma ruptura com o catolicismo, e muitas denominações evangélicas ainda carregam em sua retórica a condenação histórica do papado e de práticas como a veneração de santos e da Virgem Maria. Episódios como o “chute na santa” em 1995, protagonizado por um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, evidenciam que essa retórica, embora muitas vezes silenciada em discursos públicos mais proeminentes, ainda permeia o imaginário de parte dos fiéis.
Avanço Evangélico e a Mudança de Equilíbrio
A ascensão das igrejas evangélicas no Brasil, embora tenha desacelerado nos últimos anos, continua a alterar o panorama religioso e, consequentemente, político. Em um cenário futuro onde a maioria da população brasileira possa ser evangélica, a necessidade de manter a aliança com o catolicismo conservador pode diminuir para as lideranças evangélicas. Essa mudança de equilíbrio de forças pode levar a uma reavaliação da parceria, com potenciais ataques simbólicos a pilares do catolicismo, como a figura de Nossa Senhora Aparecida, feriados religiosos ou manifestações populares, como forma de consolidar a própria influência.
A Escalada do Discurso Político-Religioso
Outro fator a ser considerado é a dinâmica de “corrida armamentista” observada no discurso político-religioso. Posições mais radicais emergem para se destacar em um ambiente já polarizado, levando a uma radicalização progressiva de pautas. O que antes era uma oposição velada ao feminismo, por exemplo, pode se transformar em defesa explícita do fim do voto feminino. Essa escalada pode, em última instância, levar o segmento evangélico a considerar a aliança com católicos como um obstáculo, visando a suplantar a influência institucional da Igreja Católica no país.
Diante desse cenário, o lado católico da aliança conservadora deve se questionar sobre a sustentabilidade e a conveniência de manter essa união a longo prazo, avaliando se os benefícios políticos atuais compensam os riscos futuros de uma possível fragilização ou até mesmo de um rompimento.
As informações foram reunidas a partir de análises sobre o cenário político-religioso brasileiro e suas projeções futuras.