Racismo causa estresse psíquico semanal equivalente a acidente de carro, aponta psicólogo
Racismo causa estresse psíquico semanal equivalente a acidente de carro, aponta psicólogo

Racismo causa estresse psíquico semanal equivalente a acidente de carro, aponta psicólogo

O impacto psíquico contínuo do racismo na vida de pessoas negras é comparado por especialistas a vivenciar o trauma de um acidente de carro semanalmente. Essa realidade, somada a microagressões e estruturas sociais discriminatórias, compromete a saúde mental e a subjetividade de indivíduos negros. O psicólogo e psicanalista Lucas Veiga, em seu livro “Clínica do […]

Resumo

O impacto psíquico contínuo do racismo na vida de pessoas negras é comparado por especialistas a vivenciar o trauma de um acidente de carro semanalmente. Essa realidade, somada a microagressões e estruturas sociais discriminatórias, compromete a saúde mental e a subjetividade de indivíduos negros.

O psicólogo e psicanalista Lucas Veiga, em seu livro “Clínica do Impossível: como pessoas negras podem cuidar da saúde mental em um mundo racista”, aponta que a exposição recorrente ao racismo gera um estresse psíquico comparável ao de um trauma severo como um acidente de carro. Ele questiona a possibilidade de cura para um transtorno de estresse pós-traumático quando a causa do trauma, o racismo, se repete incessantemente.

A pesquisa Datafolha de 2024 corrobora essa percepção, indicando que 56% dos brasileiros pretos relatam sofrer discriminação, índice significativamente maior do que entre pardos (17%) e brancos (7%). Veiga, citando o livro como uma reedição ampliada de sua obra anterior, enfatiza que o racismo transcende incidentes isolados, englobando microviolências cotidianas, injúrias raciais e as complexas estruturas econômicas, políticas e sociológicas que perpetuam a desigualdade.

As informações foram reunidas a partir do livro “Clínica do Impossível” de Lucas Veiga e dados de pesquisa Datafolha.

A “Clínica do Impossível” como caminho de cura

Diante da impossibilidade de eliminar o racismo em uma geração, Veiga propõe a “clínica do impossível”, um modelo de cuidado que reconhece o racismo como um problema social estrutural com profundos impactos na subjetividade negra. O primeiro passo para esse cuidado, segundo ele, é o conceito de “tornar-se negro”, cunhado pela psiquiatra Neusa Santos Souza. Esse processo envolve uma tomada de consciência política, a afirmação do próprio corpo e a reconstrução da identidade e autoimagem, combatendo o ódio racial que é projetado sobre o corpo negro, conforme teorizado por Frantz Fanon.

A violência racial, ao focar na cor da pele e nos traços físicos, pode levar a pessoa negra a internalizar a culpa e a sentir que seu próprio corpo é a fonte de risco. Essa introjeção do ódio pode resultar em autodesvalorização e até mesmo em auto-aversão. A “clínica do impossível” atua justamente para reverter esse ciclo, ajudando o paciente a reconhecer o racismo como o verdadeiro agressor e a reestruturar sua autoimagem, valorizando seu corpo, sua ancestralidade e sua identidade negra.

A Terapia como “Quilombo” e a Afirmação da Vida

Veiga defende que os psicólogos estudem a fundo o racismo, uma vez que a produção teórica hegemônica na área foi historicamente construída por e para a população branca. Na “clínica do impossível”, o terapeuta funciona como um “quilombo”, um espaço seguro de proteção, fortalecimento e restauração da autoimagem para pessoas negras. A terapia visa desconstruir sentimentos de culpa e inferioridade, atribuindo a responsabilidade pelas violências raciais à estrutura racista e não ao indivíduo.

O objetivo final é que a pessoa negra possa se afirmar para além da negritude imposta, construindo uma identidade negra fortalecida e um senso de valor que permita ser plenamente si mesma. O livro propõe, após esse processo de “tornar-se negro”, a afirmação da vida como um ato de resistência contra a tristeza compulsória imposta pelo racismo. Isso se traduz em reivindicar o direito de habitar a cidade, o próprio corpo e os espaços conquistados com altivez e alegria, compreendendo que “a nossa maior vingança ao racismo é viver bem”, conclui Veiga.

O autor ressalta um paradoxo: embora o fim imediato do racismo seja impossível, também é impossível que a subjetividade negra seja completamente destruída por ele. A capacidade ancestral de criar “rotas de fuga”, reinventar o cotidiano e produzir modos de existência livres e criativos é apresentada como a essência dessa afirmação da vida. O livro ilustra essa ideia com a história do avô de Veiga, que, apesar de lidar com bipolaridade e racismo, construiu uma vida repleta de amor, respeito e invenção, utilizando o cuidado com um cavalo e a interação com os netos como formas de terapia ocupacional e de criação de rotas de fuga.

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