Campanha petista usa desinformação para reverter cenário eleitoral
Na reta final do primeiro turno, a disseminação de uma informação incorreta sobre a possível retirada do título de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil colocou a religião no centro do debate eleitoral. A campanha do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) explorou o caso, em uma estratégia vista por analistas como uma tentativa de conter a perda de eleitores católicos e reforçar a imagem do petista junto a esse segmento.
Apesar de a notícia sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ter sido desmentida, Lula declarou em programa de TV que não sabia se tratava de fake news e defendeu a permanência de Nossa Senhora como Padroeira, argumentando que “o povo brasileiro quer e tem fé”. Essa postura é interpretada como um movimento para estancar a “sangria” de votos entre os católicos, que têm demonstrado maior associação do petista a crises institucionais, como a envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF).
Pesquisas recentes indicam que a maioria dos católicos (51,7%) passou a vincular Lula à crise no STF, enquanto apenas 18,8% o fazem em relação a Flávio Bolsonaro. Esse cenário gerou um desgaste significativo para a campanha petista, com a desaprovação de Lula atingindo 51% entre os eleitores católicos. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Gazeta do Povo e pesquisas Atlas/Bloomberg e Quaest.
Estratégia arriscada: o eleitorado evangélico
Apesar de buscar reverter o quadro entre os católicos, a estratégia de Lula pode afastar o eleitorado evangélico. Aliados do petista admitem que a conquista de votos entre esse grupo é um desafio, onde o bolsonarismo mantém uma vantagem histórica. Pesquisa da Quaest aponta Flávio Bolsonaro com 46% das intenções de voto entre os evangélicos, contra 27% de Lula.
A perda de espaço da esquerda entre os eleitores católicos não é um fenômeno novo. Especialistas apontam que o cenário se intensificou desde os anos 1980, com a ascensão do catolicismo tradicional e conservador em contraponto à Teologia da Liberação e às Comunidades Eclesiais de Base, historicamente ligadas ao PT. No entanto, o catolicismo brasileiro se tornou mais plural, abrangendo setores progressistas, conservadores e carismáticos, além de uma crescente presença religiosa nas redes sociais.
Segundo o historiador Péricles Andrade, a disputa atual é mais ampla pelo “voto religioso”, onde questões morais e culturais ganham destaque. Ele ressalta que, embora haja uma aproximação expressiva entre evangélicos e a direita, nem todo evangélico é conservador, assim como nem todo católico transforma sua identidade religiosa em escolha partidária. O episódio envolvendo Nossa Senhora, para Andrade, ganhou importância por ser um símbolo devocional, cultural e nacional, capaz de atingir um público amplo, e o eleitorado católico permanece em disputa.
Recuperação nas pesquisas e o “pacote completo”
O episódio da fake news sobre Nossa Senhora, somado a medidas econômicas e sociais anunciadas na última semana, como o aumento do Bolsa Família e o programa Desenrola 3.0, parece ter impulsionado a recuperação de Lula nas pesquisas. O candidato viu sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro aumentar de quatro para cinco pontos no primeiro turno, segundo a Quaest. No entanto, no segundo turno, os dois aparecem numericamente empatados.
O cientista político Paulo Moura avalia que o “pacote completo” de ações, incluindo o boato sobre a imagem religiosa, deu fôlego a Lula. Contudo, ele alerta que essa recuperação pode não se sustentar, diante de uma economia ainda fragilizada e do endividamento da população, onde um aumento de R$ 90 no Bolsa Família pode não ser suficiente para reverter o quadro de poder de compra.
Armadilha para o adversário e o papel da CNBB
Para o cientista social Paulo Ramirez, a exploração da fake news por Lula, embora antiética, pode ter criado uma armadilha para Flávio Bolsonaro, com o objetivo de desgastar a imagem do opositor. A reação de Bolsonaro, ao portar uma imagem de Nossa Senhora, teria gerado incômodo em parte do eleitorado evangélico, sendo vista por alguns como uma traição. Ramirez sugere que a ação foi orquestrada pelo PT, remetendo a táticas da “velha guarda” da esquerda.
A polêmica ganhou destaque nas redes sociais e chegou à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), após Flávio Bolsonaro acusar membros da entidade de terem auxiliado na disseminação da informação falsa. A CNBB negou veementemente qualquer participação na divulgação de fake news e afirmou não integrar estruturas político-partidárias. A entidade reitera que não indica candidatos nem partidos, mas orienta os fiéis a considerarem a trajetória e os compromissos dos candidatos em relação à democracia, verdade, justiça e bem comum.
Setores importantes do episcopado têm debatido temas como soberania, defesa da Amazônia e democracia, pautas historicamente associadas à esquerda católica. Movimentos como “Diálogo pelo Reino” divulgaram cartas contra o “conservadorismo autoritário” e defenderam escolhas eleitorais comprometidas com os pobres, a democracia e o meio ambiente. Bispos da CNBB também têm se manifestado em vídeos e publicações, abordando a importância da soberania nacional, da proteção ambiental e dos direitos de populações vulneráveis no contexto eleitoral.
