Apagamento científico em foco
Um estudo pioneiro realizado no Brasil sobre os padrões de sono de polvos, que revelou a existência de fases de sono ativo e quieto em cefalópodes, tem sido sistematicamente omitido em produções internacionais de grande alcance. A pesquisadora Tatiana Leite, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), expressou sua frustração ao constatar que tanto uma exposição no National Geographic Museum of Exploration quanto o documentário “Secrets of the Octopus”, da própria NatGeo, deixaram de creditar a contribuição científica brasileira.
O estudo, publicado em 2021 na revista científica iScience, foi o primeiro a filmar e quantificar os diferentes estados de sono em polvos adultos da espécie Octopus insularis. A pesquisa, liderada por Sylvia Medeiros sob a orientação de Tatiana Leite e Sidarta Ribeiro, observou que os polvos alternam entre um sono tranquilo, caracterizado por palidez e relaxamento, e um sono ativo, onde ocorrem mudanças rápidas de cor e textura na pele, além de movimentos oculares. Essa fase ativa guarda semelhanças com o sono REM dos mamíferos, embora ainda não seja possível afirmar que os polvos experimentem sonhos vívidos.
A omissão é particularmente notável, segundo Leite, pois a própria bióloga australiana Alexandra Schnell, exploradora da NatGeo e mencionada nas produções, havia comentado positivamente o estudo da UFRN logo após sua publicação. A pesquisadora brasileira enviou uma carta à National Geographic Society em 25 de agosto solicitando a retificação da atribuição, mas ainda não obteve resposta.
Desafios da visibilidade científica latino-americana
Tatiana Leite ressaltou que descobertas científicas originadas na América Latina e em outras regiões fora dos grandes centros de pesquisa internacional já enfrentam dificuldades para obter o devido reconhecimento. Quando produções de mídia de grande influência apresentam tais descobertas sem mencionar os cientistas responsáveis, o registro histórico da contribuição científica acaba sendo distorcido.
A popularidade dos polvos na cultura popular tem crescido, impulsionada por obras como o livro “Outras Mentes” (2016) de Peter Godfrey-Smith, o documentário vencedor do Oscar “Professor Polvo” (2020) de Craig Foster, e a série da Netflix “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” (2026). Essas produções frequentemente exploram a inteligência e a complexidade comportamental desses animais, chegando a atribuir-lhes consciência e sonhos, como no caso do polvo Marcellus no filme da Netflix. No entanto, a base científica para tais afirmações, como os padrões de sono, parece ser negligenciada em favor de narrativas mais ficcionais.
A situação levanta um debate sobre o apagamento científico e a necessidade de maior visibilidade e crédito para pesquisas realizadas fora do eixo tradicional da ciência ocidental. A falta de resposta da National Geographic Society a um pedido formal de retificação apenas acentua a preocupação de Leite e de outros pesquisadores sobre a dificuldade em garantir o reconhecimento justo para o trabalho científico latino-americano.
