The Economist aponta poucas esperanças de mudança estrutural no Brasil
A revista britânica The Economist publicou uma série de análises contundentes sobre o cenário político e econômico do Brasil, dirigindo críticas tanto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto ao senador Flávio Bolsonaro. Em seus textos, a publicação descreveu Lula como um “esquerdista caduco” e Flávio Bolsonaro como um “nepo baby vingativo”, avaliando que ambos oferecem poucas perspectivas de reformas estruturais significativas para o país.
Em um editorial intitulado “Brasil vira as costas para o futuro”, a The Economist expressou ceticismo em relação à capacidade da eleição geral de outubro em promover uma mudança de rumo. A revista criticou ambos os candidatos por não apresentarem, segundo sua avaliação, respostas suficientes para desafios persistentes como a dívida pública, o baixo crescimento econômico e a corrupção.
Em contrapartida, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu a política econômica do governo Lula em um artigo publicado pela mesma revista, contestando o diagnóstico de deterioração fiscal e apresentando dados sobre a redução do déficit primário e a manutenção das despesas primárias como porcentagem do PIB.
Potencial econômico subutilizado e obstáculos estruturais
A análise da The Economist que cunhou os epítetos para Lula e Flávio Bolsonaro parte da constatação do vasto potencial econômico do Brasil, que, segundo a revista, continua a crescer abaixo de suas capacidades. A publicação destaca os pontos fortes do país, como a produção de petróleo, a matriz de energia renovável, a força do agronegócio e as reservas de terras raras. O Brasil também foi citado como um destino atraente para investimentos estrangeiros, recebendo US$ 77 bilhões no último ano, atrás apenas da China entre os países em desenvolvimento.
Contudo, a revista aponta obstáculos significativos que freiam o avanço econômico. Juros reais elevados, o endividamento de famílias e empresas, e o crescimento da dívida pública são mencionados como entraves. A publicação ressalta que cerca de 9 milhões de empresas estão inadimplentes e que o pagamento de dívidas consome aproximadamente 30% da renda média das famílias. A dívida pública, que se aproxima de 100% do PIB, e o peso dos juros limitam os recursos disponíveis para investimentos.
A estrutura do Orçamento federal, com cerca de 90% já comprometido com despesas obrigatórias, principalmente aposentadorias e gastos definidos por lei, também é criticada. Essa rigidez orçamentária, na visão da revista, reduz o espaço de manobra para investimentos e outras despesas discricionárias do governo.
Críticas aos candidatos e ao cenário político
Ao analisar os principais candidatos, a The Economist aponta que Lula tem avançado pouco em reformas para conter gastos e critica sua resistência a um ajuste fiscal mais profundo. Sobre Flávio Bolsonaro, a revista observa que sua campanha promete maior controle das contas públicas, mas detalha pouco sobre como pretende alcançar essa meta, especialmente no que diz respeito à redução de despesas. A publicação sugere que ambos os candidatos enfrentariam dificuldades em alterar despesas protegidas por lei e em lidar com grupos de influência sobre o Orçamento.
A revista também abordou o escândalo envolvendo o Banco Master, citando as investigações sobre o banqueiro Daniel Vorcaro e suas supostas relações com figuras políticas e do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a The Economist, o caso expõe um cenário de desconfiança nas instituições brasileiras, onde a influência política pode afetar investigações e julgamentos.
As prioridades de campanha também foram alvo de críticas. A revista aponta que propostas relacionadas ao perdão a Jair Bolsonaro e ao confronto com ministros do STF têm ganhado mais espaço na campanha de Flávio Bolsonaro do que um programa econômico detalhado. No caso de Lula, a revista questiona a viabilidade de suas propostas de investimento em áreas como defesa, inteligência artificial e minerais críticos, diante da atual situação das contas públicas.
Editorial aponta desafios e resiliência institucional
No editorial “Brasil vira as costas para o futuro”, a The Economist reitera que o país possui recursos e vantagens econômicas para um crescimento mais robusto, mas falha em converter esse potencial em progresso sustentado. O crescimento dos gastos públicos e a corrupção são apontados como os principais desafios para o próximo governo.
A revista argumenta que a falta de uma trajetória clara para estabilizar a dívida em relação ao PIB manterá os juros elevados, prejudicando investimentos essenciais para o aumento da produtividade e do crescimento. Uma redução consistente da dívida, segundo o editorial, exigiria cortes profundos nos gastos públicos, uma tarefa dificultada pelo peso das despesas constitucionais e legais.
Apesar do diagnóstico pessimista, a The Economist reconhece a resiliência de algumas instituições brasileiras. A atuação da Polícia Federal em investigações, a existência de uma imprensa independente e a reputação internacional do corpo diplomático são citados como sinais de que o país possui mecanismos capazes de reagir a crises políticas e institucionais.
Ministro da Fazenda defende política fiscal do governo
Em sua defesa da política fiscal do governo Lula, o ministro Dario Durigan afirmou em artigo que o Brasil está promovendo um ajuste gradual das contas públicas sem sacrificar programas sociais. Ele projeta a queda do déficit primário e destaca a manutenção das despesas primárias em torno de 19% do PIB sob o novo arcabouço fiscal.
Durigan reconheceu a preocupação com o crescimento da dívida pública, mas assegurou que o governo pretende continuar a consolidação fiscal para alcançar superávits. O ministro também atribuiu ao governo Lula a queda do desemprego e da pobreza, a valorização do salário mínimo e a retirada do Brasil do Mapa da Fome da ONU, medidas que teriam sido implementadas concomitantemente à busca pela melhoria das contas públicas.
A revista The Economist informou, ao final de seus artigos, que convidou a equipe econômica de Flávio Bolsonaro para apresentar sua visão, mas a campanha recusou o convite.
