O dilema de Donald Trump em relação ao conflito no Iêmen
Nas últimas semanas, o presidente Donald Trump tem enfrentado uma decisão complexa: atender aos apelos da Arábia Saudita por apoio militar contra os rebeldes Houthis no Iêmen, grupo apoiado pelo Irã. Essa questão tem gerado oscilações na posição do presidente, que se vê em uma encruzilhada entre a manutenção de uma aliança crucial contra o Irã e o risco de abrir uma nova frente de conflito com consequências econômicas globais. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The New York Times.
O pedido saudita ganhou urgência na última quinta-feira (17), quando o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman telefonou diretamente a Trump, implorando por intervenção militar para conter o avanço Houthi. A pressão resultou em uma ordem inicial ao Pentágono para preparar ataques aéreos. No entanto, apenas três dias depois, no domingo (20), o presidente indicou uma mudança de rumo, afirmando que, por enquanto, não haveria ataques americanos. A Casa Branca se limitou a declarar que os EUA “sempre defenderão seus aliados”, mas não comentou oficialmente as deliberações de Trump.
Ceticismo interno e o peso da guerra contra o Irã
A maior parte do círculo íntimo de Trump demonstrava ceticismo ou oposição direta ao envolvimento dos EUA na luta saudita contra os Houthis. Essa resistência se intensifica diante das já existentes pressões sobre as Forças Armadas americanas na guerra contra o Irã. Mesmo com comandantes militares tendo aprovado listas de alvos e soldados preparando aeronaves para missões, a decisão de adiar ou recuar dos ataques foi tomada.
Em entrevista à Fox News, Trump declarou estar em “modo de decisão” sobre a guerra mais ampla contra o Irã e mencionou que os EUA mantinham comunicação com os Houthis, que, segundo ele, haviam concordado em não combater forças americanas. Essa declaração ressalta o impasse: embora os Houthis tenham evitado confrontos diretos com navios americanos, sua ofensiva contra a Arábia Saudita cria um dilema para Trump.
A dependência americana da Arábia Saudita e o risco de instabilidade
Autoridades militares americanas argumentam que a cooperação saudita é vital na guerra contra o Irã. O reino, por sua vez, já demonstrou sua capacidade de influenciar a política externa dos EUA, como quando negou o uso de seu espaço aéreo e bases aéreas para um plano americano de escoltar petroleiros no Estreito de Hormuz em maio. Um ingresso dos EUA na luta contra os Houthis poderia ocorrer em conjunto com uma ofensiva terrestre iemenita, mas a eficácia dessas forças contra os rebeldes é questionável.
Os Houthis combatem o governo iemenita reconhecido internacionalmente desde 2014, com apoio saudita. Embora uma trégua tenha reduzido a violência em 2022, o grupo intensificou sua atuação no contexto da guerra mais ampla no Oriente Médio, atacando embarcações sauditas no Mar Vermelho e controlando áreas estratégicas próximas ao Estreito de Bab el-Mandeb, um ponto crucial para o comércio global de energia.
Lições do passado e a complexidade de derrotar os Houthis
Diplomatas e comandantes experientes no Oriente Médio expressam ceticismo sobre a capacidade de uma campanha limitada de bombardeios forçar os Houthis a negociar, lembrando que o grupo resistiu a quase oito semanas de bombardeios americanos no ano passado. Há também dúvidas sobre a eficácia de apoiar as forças terrestres iemenitas, descritas como um “Frankenstein” de grupos com objetivos conflitantes, que muitas vezes lutam entre si.
Em 2025, os EUA realizaram uma campanha de bombardeios contra os Houthis por mais de 50 dias, com um custo estimado de US$ 1 bilhão apenas no primeiro mês, sem conseguir conter completamente os ataques do grupo. Dois caças americanos caros caíram no mar durante a operação. Apesar de um cessar-fogo posterior ter levado os Houthis a parar de disparar contra navios americanos, especialistas alertam que a retomada de ataques aéreos poderia reverter essa situação. Além disso, com a instabilidade no Estreito de Hormuz, novas interrupções no transporte de petróleo e gás pelo Bab el-Mandeb são iminentes. Os Houthis, mesmo após os ataques americanos, reconstituíram suas capacidades e utilizam inteligência artificial no desenvolvimento de novos mísseis, tornando sua derrota um desafio considerável, mesmo com o apoio dos EUA à Arábia Saudita.
