El Niño: Santa Catarina, Estado Mais Vulnerável, Investe R$ 1 Bilhão em Prevenção, Mas Obras Cruciais Patinam

El Niño: Santa Catarina, Estado Mais Vulnerável, Investe R$ 1 Bilhão em Prevenção, Mas Obras Cruciais Patinam

Santa Catarina se prepara para El Niño forte com alerta climático e satélite próprio, mas obras em barragens avançam lentamente Santa Catarina, o estado que mais registrou decretos de calamidade na última década, enfrenta a iminência de um El Niño de intensidade forte a muito forte. Em resposta, o governo estadual tem implementado medidas como […]

Resumo

Santa Catarina se prepara para El Niño forte com alerta climático e satélite próprio, mas obras em barragens avançam lentamente

Santa Catarina, o estado que mais registrou decretos de calamidade na última década, enfrenta a iminência de um El Niño de intensidade forte a muito forte. Em resposta, o governo estadual tem implementado medidas como um satélite próprio, decreto de alerta climático e um programa de gestão de riscos que teve um aumento considerável em seus investimentos.

No entanto, dados orçamentários revelam um cenário de contrastes. Enquanto os investimentos em prevenção na Defesa Civil foram destacados como um ponto positivo, a execução de obras essenciais, como as de barragens estratégicas no Alto Vale do Itajaí, está aquém do planejado.

A Confederação Nacional de Municípios (CNM) aponta que Santa Catarina emitiu mais de 4 mil decretos de calamidade entre 2013 e 2023, evidenciando sua alta vulnerabilidade a desastres climáticos. Conforme informações divulgadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC), o programa “Gestão de Riscos” recebeu R$ 230,34 milhões em 2025, um aumento superior a 300% em relação ao ano anterior, demonstrando um esforço em fortalecer a capacidade de resposta a eventos extremos.

Avanços em Tecnologia e Monitoramento

O governo de Santa Catarina tem investido pesadamente em tecnologia para antecipar e mitigar os impactos de desastres climáticos. Desde 2018, o estado construiu uma estrutura de monitoramento considerada inédita no país. A Secretaria de Proteção e Defesa Civil é a única defesa civil estadual com antena própria para receber imagens diretamente do satélite geoestacionário GOES-19.

Este sistema, instalado no Centro Integrado de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cigerd), em Florianópolis, capta dados contínuos em diversas faixas de luz. Essas informações são integradas a uma rede de quatro radares meteorológicos e 172 estações hidrológicas e meteorológicas espalhadas pelo estado, permitindo um acompanhamento em tempo quase real das condições climáticas.

A Defesa Civil catarinense opera dois sistemas complementares de alerta para a população. O SMS da Defesa Civil, um serviço gratuito que envia mensagens de risco mediante o envio do CEP, e o sistema Defesa Civil Alerta, que utiliza a tecnologia de cell broadcast para disparar avisos diretamente na tela de celulares em áreas de risco, sem necessidade de cadastro.

Investimentos em Prevenção e a Realidade Orçamentária

O Secretário de Proteção e Defesa Civil, coronel Fabiano de Souza, atribui o crescimento dos investimentos a um processo de “amadurecimento institucional e fortalecimento da capacidade de investimento”. Ele destaca que 2024 foi fundamental para o planejamento, com revisão de projetos, estruturação de processos licitatórios e organização de fontes de financiamento.

“Houve um remanejamento técnico de recursos para o programa Gestão de Riscos, permitindo um incremento superior a R$ 100 milhões em investimentos voltados à prevenção e preparação”, afirmou Souza, mencionando um orçamento em 2025 aproximadamente três vezes superior ao de 2024.

Apesar do discurso de fortalecimento, dados do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Fiscal (Sigef-SC) revelam que a ação orçamentária para construção, ampliação e reforma de barragens executou apenas 0,66% do valor originalmente previsto em 2025. De um orçamento inicial de R$ 23 milhões para essas obras, restaram apenas R$ 913 mil, com cerca de R$ 153 mil efetivamente executados.

Preocupação com as Barragens do Alto Vale

As barragens de contenção do Alto Vale do Itajaí, como Taió, Ituporanga e José Boiteux, essenciais para conter cheias, apresentam um quadro sensível. A execução orçamentária para a construção, ampliação e reforma dessas estruturas em 2025 foi drasticamente reduzida, levantando preocupações sobre a capacidade de resposta do estado em caso de eventos extremos.

O TCE-SC, em relatório de abril de 2025, determinou um novo acompanhamento da execução orçamentária da Defesa Civil. A crítica principal é a baixa execução dos recursos orçados, com o órgão utilizando apenas 32,06% dos recursos reservados em 2024, e o Fundo Estadual aplicando 49,13% do valor disponível.

Para o conselheiro-relator José Nei Ascari, “o problema não estava na falta de recursos, mas na baixa execução do que está orçado”. Rubricas ligadas diretamente à prevenção, como “mitigação, prevenção e resiliência para redução de riscos de desastres”, tiveram execução de apenas 0,96% em 2024, e 0% em áreas como “educação continuada em proteção e defesa civil” e “ampliação, modernização e melhoria da rede de monitoramento e alerta”.

El Niño e a Nova Realidade Climática

O El Niño projetado para 2026 é tratado com alta preocupação por meteorologistas e órgãos públicos. Atualizações indicam a possibilidade de aquecimento significativo na faixa equatorial do Oceano Pacífico, enquadrando o fenômeno na categoria de “super El Niño”. Essa configuração tende a reforçar padrões climáticos como chuvas intensas e enchentes na Região Sul do Brasil.

A Defesa Civil catarinense estima em 90% a probabilidade de o El Niño se formar ainda no inverno, com tendência de intensidade forte a muito forte entre a primavera e o verão. O risco de alagamentos, inundações e deslizamentos aumenta a partir de julho e agosto, com pico entre setembro e março, período em que o estado concentra a maior parte de seus desastres climáticos.

Diante desse cenário, o governo estadual assinou o decreto 1.530, instituindo estado de alerta climático por 180 dias. A medida permite mobilizar órgãos estaduais, reforçar o monitoramento e pré-posicionar equipes e equipamentos em regiões vulneráveis, preparando o estado para o pior cenário, com ou sem a influência direta do El Niño.

O senador Esperidião Amin resumiu a crítica geral: “o problema não é a falta de previsão; o problema é a falta de prevenção”. Essa frase ecoa a necessidade de que os investimentos em tecnologia e planejamento se traduzam em obras e ações concretas que efetivamente protejam a população catarinense diante da nova realidade climática.

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