Um estudo brasileiro aponta que a adoção de um esquema terapêutico mais completo para o câncer de mama HER2-positivo, um dos tipos mais agressivos da doença, poderia evitar até 33,7% das mortes atualmente registradas no Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa, publicada na revista The Breast, analisou dados de 22,4 mil mulheres e utilizou um modelo matemático preditivo para estimar o impacto de diferentes protocolos de tratamento.
O câncer de mama HER2-positivo, que representa entre 15% e 20% dos casos, é caracterizado pela alta expressão da proteína HER2, a qual acelera o crescimento e a multiplicação das células tumorais. Por muitos anos, o tratamento no SUS para este subtipo envolveu a combinação de quimioterapia com trastuzumabe, um medicamento que atua bloqueando a ação da HER2. Mais recentemente, o T-DM1 foi incorporado à rede pública, com recomendação da Conitec em 2022 e aprovação em 2023, com sua disponibilização efetiva ocorrendo a partir de outubro de 2025. O T-DM1 combina um anticorpo contra a HER2 com uma substância quimioterápica, sendo utilizado quando o tratamento inicial não erradicou completamente o tumor residual.
No entanto, a pesquisa liderada pelo mastologista André Mattar, da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), avaliou o impacto de três cenários terapêuticos. O primeiro simulou o protocolo tradicional do SUS com trastuzumabe, projetando uma média de 3.606 mortes. O segundo cenário incluiu o T-DM1, reduzindo a média de óbitos para 2.672, uma queda de 25,9%. A terceira e mais completa estratégia, considerada o padrão ouro, adicionou o pertuzumabe ao esquema terapêutico, resultando em uma média de 2.390 mortes, o que representa uma redução de 33,7%.
O papel do pertuzumabe e os desafios da incorporação
O pertuzumabe, que atua na proteína HER2 em um ponto distinto dos outros medicamentos, demonstrou em estudos clínicos aumentar a resposta ao tratamento antes da cirurgia. Contudo, este medicamento ainda não está disponível no SUS. A combinação de trastuzumabe, pertuzumabe e T-DM1 é apontada pelos pesquisadores como o tratamento mais eficaz entre os analisados. “Deixar de tratar as pessoas de maneira adequada pode ter um potencial muito grande de deixar de curar essas pessoas”, ressalta Mattar.
A incorporação de novas tecnologias no SUS, no entanto, enfrenta desafios orçamentários. O custo de uma dose de pertuzumabe pode variar entre R$ 17 mil e R$ 20 mil, embora negociações de compra em larga escala possam reduzir esse valor significativamente, possivelmente em mais de 50%, segundo estimativas do pesquisador. O estudo argumenta que a avaliação financeira deve ponderar o custo dos medicamentos com o impacto clínico e a potencial economia gerada pela redução de mortes e tratamentos mais complexos a longo prazo.
“A nossa ideia é mostrar que, quando há uma decisão dos órgãos governamentais, isso pode ter um impacto significativo para o paciente que está sendo tratado”, afirma Mattar, destacando a importância das decisões sobre a incorporação de terapias mais eficazes para a melhoria da sobrevida de pacientes com câncer de mama HER2-positivo no Brasil.
