O Partido dos Trabalhadores (PT) emerge do primeiro turno das eleições de 2026 com a consolidação de seus principais governos na região Nordeste, mas a um custo considerável: a crescente dependência de Luiz Inácio Lula da Silva para manter sua relevância nacional e a iminente ameaça de perder a presidência da República. A disputa acirrada com Flávio Bolsonaro (PL) e a projeção de uma direita fortalecida no Congresso Nacional expõem um dilema existencial para o partido, que se vê cada vez mais atrelado à figura de seu líder para evitar um declínio eleitoral, em um cenário que remete ao enfraquecimento de rivais históricos como o PSDB.
A possibilidade de uma derrota de Lula no segundo turno, em 25 de outubro, intensifica a pressão sobre a reorganização do PT. A perda da Presidência poderia cristalizar os governos nordestinos como os principais redutos de poder do partido, mas também forçaria uma redefinição estratégica sem a perspectiva de contar com Lula como candidato em 2030, quando terá 84 anos. A questão da sucessão interna, que se arrasta há anos, ganha contornos ainda mais urgentes diante da dificuldade em formar lideranças autônomas capazes de suceder a figura centralizadora de Lula, que detém a autoridade para mediar conflitos e definir os rumos partidários.
Enquanto Lula desvia de perguntas sobre seus sucessores, focando em sua longevidade política, a concentração territorial do PT se evidencia nas reeleições de governadores como Jerônimo Rodrigues na Bahia, Elmano de Freitas no Ceará e Rafael Fonteles no Piauí. No Rio Grande do Norte, Cadu Xavier também segue na disputa. Essa base regional sólida, contudo, não se traduziu em um avanço proporcional na representação nacional. O partido elegeu 70 deputados federais, um aumento modesto de seis cadeiras em relação a 2022, e sua federação com PCdoB e PV saltou de 82 para 88 representantes. O saldo negativo se manifestou na derrota de figuras importantes como Zé Dirceu e Paulo Pimenta em seus respectivos estados.
A distribuição geográfica da bancada petista na Câmara dos Deputados ainda demonstra uma capilaridade para além do Nordeste. Minas Gerais e São Paulo, juntos, elegem quase um terço dos deputados do partido. No entanto, o contraste com o principal adversário é gritante: o PL viu sua bancada crescer de 97 para 121 deputados, ampliando sua vantagem sobre a federação governista de 15 para 33 cadeiras. Esse crescimento expressivo do partido de Flávio e Jair Bolsonaro ofusca o avanço da aliança de centro-esquerda.
Perdas na disputa nacional e o peso do Nordeste
O principal termômetro do desgaste petista no primeiro turno de 2026 foi a própria eleição presidencial. Lula obteve 45,16% dos votos válidos, ficando 2,22 milhões atrás de Flávio Bolsonaro, que alcançou 47,03%. Embora competitivo, o atual presidente terá que reverter essa desvantagem para garantir um quarto mandato. Comparado a 2022, Lula perdeu 3,27 pontos percentuais e cerca de 3,4 milhões de votos, com queda de desempenho em 25 das 27 unidades da Federação. Minas Gerais e Tocantins, estados onde liderou em 2022, agora o colocam em desvantagem.
Neste cenário de perdas nacionais, o Nordeste reafirma seu papel como principal sustentação do PT. Lula venceu nos nove estados da região, acumulando 21,49 milhões de votos e abrindo uma vantagem regional de 11,1 milhões sobre seu adversário. Aproximadamente 40% de sua votação total veio do Nordeste, mas esse saldo não foi suficiente para compensar a desvantagem no restante do país. A dependência regional se acentua no Senado, onde cinco dos seis senadores petistas eleitos são nordestinos, com a única exceção sendo Minas Gerais. Somando os mandatos em andamento, o PT terá nove senadores, contra 28 do PL, um quadro de forte desvantagem para a próxima legislatura.
Declínio de lideranças e a busca por sucessores
Analistas apontam para um declínio de lideranças tradicionais do PT e a necessidade de renovação. A derrota de nomes como Vicentinho, Rui Falcão, Paulo Teixeira e Benedita da Silva expõe o desgaste da chamada “velha guarda”. Em São Paulo, a eleição de Luna Zarattini e Thiago dos Reis pode sinalizar uma renovação, mas a quarta derrota consecutiva de Fernando Haddad para o governo do estado enfraquece um dos nomes mais cotados para suceder Lula. A concentração de poder em Lula, embora una o partido, adia a formação de lideranças com legitimidade própria.
Apesar de manter sua estrutura, recursos e militância, a sobrevivência do PT não garante sua capacidade de liderar o país no pós-Lula. As votações para o presidente e para os parlamentares petistas parecem seguir lógicas distintas, evidenciando o desafio de converter o “lulismo” em uma força política duradoura e independente de seu fundador. A análise de Marcus Deois, da consultoria Ética, sugere que o PT pode atrair parlamentares de outras legendas de esquerda devido à cláusula de barreira, mantendo uma base parlamentar relevante. No entanto, Juan Carlos Arruda, do Ranking dos Políticos, observa um avanço da direita e centro-direita em diversos estados, com o PL elegendo governadores e liderando em importantes colégios eleitorais, o que reforça a necessidade de uma reestruturação interna para o PT.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo UOL e análise de especialistas em ciência política.
